20 agosto, 2008

Uma sociedade conforme o Direito e a Justiça de Deus: O sonho do profeta Isaías 65.17-25 (Bispo Josué Adam Lazier)

A vida humana é acompanhada de sonhos, ideais e esperanças. Quando os sonhos se desvanecem ou deixam de ser sonhados, a vida se transforma sem sentido, sem cor, sem sabor, sem graça, sem força para superação das dificuldades. Os sonhos alimentam a alma, as conquistas e as transformações pelas quais as pessoas e a sociedade passam. Há sonhos individuais, familiares, comunitários, apaixonados, abnegados, altruístas, humanitários, libertários, opressores, ou seja, assim como a vida se apresenta.

O profeta Isaías foi um dos grandes sonhadores do seu tempo. Ele sonhou com uma sociedade justa, humana e fraterna. Há quem afirme ser um sonho utópico. Mas mesmo sendo “utópico” ele pode se concretizar. Como afirma o educador Paulo Freire, “o utópico não é o irrealizável” (1). O conceito de Freire pode ser aplicado ao profetismo, quando afirma que “somente podem ser proféticos os que anunciam e denunciam, comprometidos permanentemente num processo radical de transformação do mundo, para que os homens possam ser mais” (2). Portanto, o sonho utópico do profeta tem a ver com uma sociedade transformada e, neste sentido, justa, fraterna e humana.

Este texto do profeta Isaías, destaca algumas características de uma sociedade que tem como base a vontade de Deus. Quando Isaías pregou esta mensagem o povo de Deus tinha voltado do exílio na Babilônia e estava reconstruindo a cidade de Jerusalém, bem como o Templo e a sociedade em geral. Isaías mostra que para esta reconstrução os as pessoas não deveriam esquecer a Lei de Deus que aponta para a Justiça e para o Direito.

Está implícito neste texto que o profeta se nutria do oráculo divino que afirmava que a Justiça e o Direito de Deus criariam uma sociedade liberta, humana, fraterna e justa. Deus não criou as leis como elas se expressam nas diversas culturas, elas são convenção dos homens e mulheres para viverem em sociedade. Deus determinou a lei do amor. Deus criou as pessoas e ensinou que o Direito e a Justiça orientariam a vida para que ela fosse plena e abundante para todos. Anteriormente, o profeta havia dito que Deus estava inserido na vida do povo para que todos fossem como “carvalhos de justiça” (Is 61.3).

Vivemos num tempo de exacerbação do Direito, do Jurídico, do Legal. Numa sociedade tão contraditória como a nossa e exímia em destruir a vida como se ela fosse algo descartável, não podemos esquecer que a Justiça deve imperar sempre em favor das pessoas, sobretudo das que vivem sob negação da dignidade humana. Na linguagem dos profetas, o Direito e a Justiça de Deus eram para garantir a vida do pobre, do órfão, da viúva e do estrangeiro, grupos identificados como marginalizados no mundo da época. Hoje esta lista está maior e abriga outros grupos.

Mesmo entendendo o valor das questões jurídicas e legais, não posso deixar de me valer do teológico para dizer que o jurídico e o legal não terão valor nenhum se não fizerem JUSTIÇA, se não promoverem a vida dos diminuídos, se não promoverem a dignidade dos que foram feitos indignos. Também não posso me conformar ao ver que a Igreja de Cristo, seja ela de que cor denominacional for, mas em especial a minha, se cale, se abstenha, fique neutra e indiferente quando a justiça que o Reino de Deus promove é, literalmente, jogada no lixo diariamente, seja nos tribunais, seja nos bancos das praças, seja nos ambientes eclesiásticos, nas ruas e nas sarjetas da vida, em nome do Direito, do Jurídico, do Legal e por conta da vaidade, da soberba, da demagogia e da insensibilidade que está presente entre os que detêm o poder de decidir sobre a vida dos outros.

O sonho do profeta Isaías era para que através do Direito e da Justiça de Deus boas novas fossem levadas aos pobres; aflitos fossem animados; houvesse anúncio de liberdade aos cativos e consolo para que os que choram; houvesse alegria em vez de tristeza e felicidade em vez de lágrimas; que o luto se transformasse em festa e que casas fossem reconstruídas (Is 61.1-3). O profeta sonhou e chamou o povo para o sonho e para a luta a fim de que o sonho se concretizasse no contexto histórico.

Sentimo-nos impelidos a sonhar e lutar como o profeta Isaías. Afinal, uma Igreja que tem como eixo principal de sua missão a Justiça do Reino de Deus, tem que ser formada por uma membresia comprometida até as últimas conseqüências com o Direito e a Justiça de Deus, seja por vocação, missão ou ocupação. Nas palavras de Jesus este caminho é estreito (Mateus 7.14). Que possamos dizer como o profeta: “o Espírito do Senhor está sobre nós”, por isso lutamos em favor da Justiça do Reino de Deus.


CITAÇÕES:__________________________________________________
(1) FREIRE, Paulo. Conscientização – Teoria e Prática da Libertação. São Paulo, SP: Centauro Editora, 2005, p. 32.

(2) FREIRE, Paulo. Conscientização – Teoria e Prática da Libertação. São Paulo, SP: Centauro Editora, 2005, p. 32.
Josué Adam Lazier
Bispo Honorário

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