12 Novembro, 2009

Não quero o direito de ser homofóbica (Bráulia Inês Ribeiro)

Em um momento como o que estamos vivendo no Brasil temos que saber pesar nossas palavras como Igreja. Não é nosso papel legislar moral. Deus criou a lei moral a partir de seu próprio coração refletindo seu amor e cuidado com aqueles que Ele mesmo criou e que conhece muito bem.

É sua intenção que nossa sexualidade refletisse a profundidade e intimidade do relacionamento que Ele mesmo quer ter conosco. É sua intenção que nossa sexualidade seja responsável, monogâmica, comprometida por toda a vida, gerando o núcleo da família, filhos que vão encher a terra e conhecer parte de seu amor através do amor que seus pais em família são capazes de gerar. É sua intenção que nossa sexualidade seja hetero-sexual, para poder cumprir as duas outras intenções acima: um amor que se encontra nas diferenças e não na igualdade e um amor capaz de gerar biológicamente, fisicamente completo nas palavras de Roberto Carlos pelo côncavo e o convexo.

Deus é o criador do sexo e do prazer sexual. No entanto apesar de todos estes projetos maravilhosos para a família ele não se ilude à respeito do mal uso que podia ser feito deste sexo inventado por ele. Há páginas e páginas na Bíblia sobre com que e com quem não devemos praticar sexo. Não pratique com sua irmã, com seu irmão, com seu pai, com sua mãe, com outro homem se você for homem, com outra mulher se você for mulher, com o bode, com animais, etc., etc. Deus não presumiu que por haver um ideal, estaríamos todos compelidos a ele. Ele estabeleceu sanções claras para que Israel como toda sociedade sadia tivesse como reforçar o padrão social estabelecido por ele, senão com certeza como acontece em qualquer sociedade este padrão se perderia completamente em poucas gerações.

Como Igreja vivemos hoje no Brasil uma encruzilhada moral e cultural. É nosso dever e nosso ideal cristão viver os princípios de Deus para a família. Infelizmente vivemos estes valores de uma forma pífia. A Bíblia dá mais ênfase ao adultério, do que às perversões, defendendo os limites da família com veemência. Nós cristãos não damos ao adultério a mesma importância, justificamos, entendemos, e até “defendemos” adultérios em nome da felicidade pessoal e em nome do mero hedonismo que tempera nossa religião com o mesmo sabor do mundo.

Mas a homossexualidade? Ah, este sim é um pecado gravíssimo e numa hora como esta nos desesperamos para ter uma voz. Infelizmente não sabemos nem pelo que lutar. Que tipo de voz queremos? Uma voz moral? Queremos que as leis brasileiras reflitam as leis morais de Deus? Que os homossexuais sejam apedrejados? Acho que o bom senso nos diz que não. Queremos então que o Estado brasileiro se conforme mais aos padrões de Deus e não permita a união legal homossexual? Seria um clamor mais razoável e teríamos que trabalhar um tempo com a sociedade para verificar se este é o desejo da maioria da sociedade. Mas também não teríamos tratado com o problema principal.

Como disse a estudiosa da Bíblia professora Landa Cope, que tive o privilégio de ouvir recentemente, de acordo com a palavra de Deus a responsabilidade de legitimar casamentos não é do Estado. O Estado pode casar dois homens, um homem com duas mulheres, três homens com uma mulher, dois porcos com uma galinha, que pra Deus não faz diferença. Esta responsabilidade também não foi dada à Igreja. Numa sociedade que vive princípios bíblicos esta responsabilidade é da família. É no dominío das famílias que se legitima, e fortalece a união de dois jovens, a formação de uma nova família. Vemos casamentos na Bíblia mas nem um casamento feito ou legitimado pela igreja ou pelo estado. Como acontece até hoje nas sociedades tribais, e muçulmanas, as famílias dos noivos se juntam entram em acordo e se comprometem em nutrir e abençoar a constituição de uma nova família.

Se o Estado acha por bem legitimar a união homossexual e a população do país concorda, não há nada que podemos fazer como cristãos. Não é o ideal para sociedade nenhuma, como cristãos se nos for dado o direito de voto, diremos não, mas será que vai fazer muita diferença? Infelizmente nos dias de hoje até os casamento heterossexuais estão se desfazendo em mais de 40%. Será que os pseudo-casamentos gays tem chance de durar mais? Eu duvido.

Como cristã tenho que dar a mão à palmatória e também reconhecer que a confusão entre moralidade e leis governamentais também não é de Deus. Misturar Deus e estado foi um erro na época de Constantino e continua sendo um erro hoje.

Um estado justo e que reflete os valores de Deus vai afirmar para cada indivíduo o direito às suas escolhas individuais desde que estas escolhas não firam o direito de outros. Muitos evangélicos estão numa expectativa de uma espécie de “sharia” cristã onde a moralidade cristã seria reforçada pelo estado. Além de ser injusta e absurda esta “sharia” não mudaria o coração dos homens que só é definitivamente mudado de dentro pra fora.

Como discutir então a questão homossexual no Brazil hoje?

Temos o dever cristão de lutar contra a homofobia. A discriminação de pessoas com base na sua preferência sexual é tão ruim como a discriminação com base na sua crença religiosa. A voz anti-homofobia deveria ter sido ouvida primeiro da nossa boca, um grito de amor em favor do aflito. O homossexual é gente. Tem direito à emprego, tem direito à tratamento médico, tem direito a ter o seu espaço. Se tivéssemos liderado esta luta é provavel que não teríamos que viver hoje o desconforto da imposição da agenda homossexual como estamos vivendo. Teríamos nos aliado a eles pelo amor de Cristo, e não nos levantado contra eles numa cruzada de ódio e preconceito. O amor faz toda a diferença. O reino de Deus se ganha perdendo...

Mas agora é quase tarde demais. O pacote gay está no congresso e está pesado. Agora quem está sendo roubado de direitos somos nós. Se o pacote for aprovado como está não teremos mais o direito de expressar nossos valores morais, e teremos que engolir uma educação homossexualizante imposta nas escolas à pretexto de “prevenção anti-homofobia”. O que fazer??

Imagino que se erguemos nossa voz agora de maneira racional, cordata se nos uníssemo pelo verdadeiro desejo de que o direito de todos sejam respeitados, os nossos, e os deles, quem sabe ainda poderíamos mandar uma delegação para o “Grupo de Trabalho” da senadora Fátima Cleide, e ser ouvidos. Se nossa voz for amor, for respeito, seremos também respeitados.

Bráulia Inês Ribeiro [via Eclésia]
está na Amazônia há 25 anos como missionária, é presidente nacional da JOCUM(Jovens Com Uma Missão) e autora do livro Chamado Radical (Editora Atos)

Extraído do site http://pavablog.blogspot.com/search?q=homofobia

A Igreja edificada por Cristo tem a chave do Reino (Ronan Boechat de Amorim)

No texto bíblico de Mt 16:13-20 Jesus afirma que a sua Igreja seria edificada sobre o reconhecimento e a confissão que ele (Jesus) é o Messias, o filho de Deus, o Salvador. Temos também nesse texto Jesus dizendo que daria à Igreja as chaves do Reino dos Céus e a autoridade para ligar e desligar pessoas da própria igreja, ou seja, autoridade para incluir pessoas através do batismo e da pública profissão de fé, e a exclusão de pessoas por falta de frutos dignos do Evangelho de Cristo, de uma vida autenticamente cristã.

Não é sobre Pedro que Jesus edificará a sua igreja; Pedro inclusive é chamado de “satanás” (Mt 16:23). A igreja de Jesus não é edificada sobre homem algum, mas sobre a confissão de que Jesus é Senhor. Igreja, portanto, são aqueles que confessam a Jesus como Senhor e Salvador. Também não é Pedro que recebe as chaves do Reino e a autoridade de ligar e desligar. Esse poder e autoridade mencionados nesse capítulo 16 são mencionados e dados a todos os demais discípulos em Mt 18:18. Quem tem a autoridade, portanto, são os discípulos(as) de Jesus, ou seja, a Igreja de Jesus.

As chaves do Reino são a pregação e o testemunho que anunciam as Boas Novas de salvação e que têm o poder de gerar a conversão e a salvação das pessoas, ou seja, de “abrir as portas” do Reino às pessoas. O testemunho e a pregação do Evangelho geram a fé e a entrega da vida ao Senhor, e consequentemente a experiência da salvação. Por isso, Jesus afirma que o anúncio do Evangelho abre as portas do Reino dos Céus. A Igreja tem autoridade para chamar as pessoas para a salvação. “As chaves são símbolo da autoridade do mordomo para abrir e fechar, com provável alusão a Isaías 22:15-25”, diz a nota de rodapé da edição da Bíblia de Estudo Almeida, da Sociedade Bíblica do Brasil.

Mas há também a autoridade divina dada à Igreja para ligar e desligar. Assim como a igreja tem autoridade para incluir os novos membros que confessam Jesus, ela tem autoridade e a obrigação para excluir os crentes que deliberadamente envergonham o nome de Jesus, incluindo aqueles que recebem a graça divina em vão (2Co 6:1) e que são ramos que não dão fruto (Jo 15:2, Tt 1:16).

09 Novembro, 2009

A pedra sobre a qual a Igreja é edificada e as chaves do Reino que dão autoridade à Igreja para ligar e desligar (Ronan Boechat de Amorim)

Mateus 16:13-23


1 – O reconhecimento e a confissão do apóstolo Pedro são estabelecidos como a pedra, ou seja, o o fundamento da comunidade da fé: é igreja de Jesus quem reconhece e confessa que Jesus é o Messias, o filho de Deus, enviado ao mundo para salvar o que estava perdido.

2 - E sobre esta pedra, sobre o fundamento desse reconhecimento e dessa confissão, eu edificarei a minha igreja. A igreja nasce a partir da confissão, a partir daqueles que confessam o senhorio e a divindade de Jesus.

3 – As portas do inferno/sepulcro (do pecado, do mal, da morte) não prevalecerão contra ela. Jesus está dizendo que o poder da morte nunca poderá vencer a igreja edificada por Ele. Pelo contrário, a vida é que vence a morte... as portas da morte não permanecerão de pé, indiferentes ao anúncio do Evangelho. A Igreja é o povo marcado pela fé e pela experiência da ressurreição!

4 – Dar-te-ei as chaves do Reino dos céus – embora Jesus esteja falando com Pedro, ele dá as chaves do Reino à Igreja, aos crentes. Basta ver que esta mesma expressão e poder são usados no capítulo 18:18, inclusive o poder de ligar e desligar na terra e no céu.

5 – As chaves do Reino não é um poder extraordinário e poder de salvação. Mas o poder da pregação que gera a fé e que provoca a decisão no pecador de aceitar a salvação divina que lhe é oferecida gratuitamente.

Quando Pedro pregou em At 2:14-40 ele “abriu” a porta do Reino pela primeira vez: e quase três mil pessoas se converteram e foram batizadas, tendo seus nomes escritos no Livro da Vida pelo Senhor Todo Poderoso.

6 – O que ligar na terra será ligado no Céu e o que desligar na terra será desligado no Céu - Deus dá autoridade à sua Igreja. Pedro e os demais discípulos iam continuar a Obra de Cristo, pregando o Evangelho e revelando a vontade de Deus aos homens e mulheres, sendo revestidos com a mesma unção e autoridade que o Mestre Jesus possuía. No Céu, Cristo sanciona o que é feito aqui no seu nome, o que é feito pela Igreja em total submissão e obediência à sua Palavra aqui na terra.

7 – Pedro e a Igreja para terem essa autoridade precisam confiar nas Palavras de Jesus e submeterem-se à sua vontade. Porque senão, o discípulo(a) e a Igreja deixam de ser Igreja edificada por Cristo e com a autoridade de Cristo (que age na direção e poder de Deus) e passa a ser satanás (adversário, alternativa à vontade de Deus). A “confissão” passa a ser mero rito, deixando de ser real e significativa, passando de pedra fundamental a pedra de tropeço e obstáculo.

8 – É o que acontece quando Jesus revela a humilhação e o sofrimento e morte de cruz que enfrentará. O mesmo Pedro que confessou e alegrou Jesus ao reconhecê-lo como o Messias, agora tenta demover Jesus de cumprir seu propósito. Pedro chama Jesus num canto e começa a reprová-lo (Mt 16:22): “de modo algum isso te acontecerá!”.

9 – Mas Jesus repreende a Pedro identificando-o não como o fundamento da Igreja, mas como pedra de tropeço. Jesus lhe diz: “Não cogitas (não pensas) as coisas de Deus. Arreda, Satanás! Afasta-te de mim.”

Só a título de curiosidade, mais adiante (Mt 26:31-35) ao prevenir os seus discípulos sobre o escândalo que sua prisão e morte humilhante e dolorosa na cruz causaria, Pedro se diz pronto para ir com Jesus até as últimas conseqüências, afirmando também que nunca negaria a fé em Jesus. No mesmo relato em Lc 22:31-34 narra Jesus dizendo a Pedro que intercederá por ele, para que a sua fé (de Pedro) não desfaleça. Jesus afirma também que quando Pedro se converter, será bênção na vida de seus irmãos.

10 – Voltando ao texto de Mt 16, depois de exortar a Pedro, Jesus diz aos seus discípulos: “Se alguém quer vir após mim, a si mesmo se negue, tome a sua cruz e siga-me. Porquanto, quem quiser salvar a sua vida perdê-la-á; e quem perder a vida por minha causa achá-la-á. Pois que aproveitará o homem se ganhar o mundo inteiro e perder a sua alma?” (Mt 16:24-26). Ou seja, estejam prontos para o que der e vier, mas não abram mão do reconhecimento e da confissão de que Jesus, e só Jesus, é o Messias, o filho de Deus, enviado ao mundo para salvar o que estava perdido.

BATISMO: uma “circuncisão” feita pelo Deus Trino (Ronan Boechat de Amorim)

Deus salva as pessoas do poder do pecado, do mal e da morte e as reúne como Igreja, para serem filhas de Deus e irmãs umas das outras, colocando cada um dos membros no Corpo (a Igreja), segundo a sua vontade (1Co 12:18).

O ato através do qual passamos a fazer parte do Corpo de Cristo (da Igreja) é o batismo, expressamente ordenado pelo Senhor Jesus. “Todo o que crê e for batizado será salvo” (Mc 16:16). “Ide, portanto, fazei discípulos de todas as nações, batizando-os em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo” (Mt 28:19).

O batismo no Novo Testamento e para a fé cristã substitui o rito da circuncisão ordenada por Deus a Abraão no Antigo Testamento. Deus diz a Abraão: “A circuncisão servirá como sinal da aliança que há entre mim e vocês. Quem não for circuncidado não poderá morar no meio de vocês, pois não respeitou a minha aliança.” (Gn 17: 11 e 14). Falando sobre o rito (sacramento) instituído pelo Senhor Jesus para que a pessoa faça parte da Igreja, o apóstolo Paulo nos diz: “Em Cristo, nós cristãos fomos circuncidados com uma circuncisão não feita por mãos humanas, mas com a circuncisão de Cristo, a qual consiste em despojar-se do corpo carnal. Com Cristo, nós fomos sepultados no batismo, e em Cristo também fomos ressuscitados mediante a fé no poder de Deus, que ressuscitou Cristo dos mortos” (Cl 2:11-12).

“O batismo cristão feito em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo, que substitui a circuncisão, leva o cristão a participar da morte e ressurreição de Cristo, isto é, a passar da morte para a vida”, diz-nos a nota de rodapé da Bíblia Edição Pastoral referente ao texto de Cl 2:11-12. Ao passarmos pelo ato espiritual do batismo, Deus opera a morte do “velho homem” e da vida sem Cristo e a consequente ressurreição para uma nova vida em Jesus.

O batismo é um sinal visível de uma graça invisível, de uma operação divina, da criação de vínculos espirituais. É pelo batismo, portanto que somos enxertados em Cristo e no Corpo de Cristo; para sermos Igreja e permanecermos em Cristo. “Todo ramo que permanece em mim, eu permaneço nele, esse dá muito fruto, mas aquele que não dá fruto é cortado e lançado fora”, assegura-nos Jesus em Jo 15:5-6. É pelos frutos que somos conhecidos... (Mt 7:20).

20 Outubro, 2009

Vaticano aprova normativa especial para acolher anglicanos: estrutura prevê conservar patrimônio espiritual e litúrgico das comunidades

O Vaticano anunciou nesta terça-feira (20) a disposição de acolher na Igreja Católica os anglicanos e, para isso, aprovou uma Constituição Apostólica que contempla a concessão de uma divisão pessoal, similar à do Opus Dei e dos Ordinariatos Militares.

A norma de máxima categoria prevê a ordenação de clérigos casados anglicanos como sacerdotes católicos, embora não a de homens casados como bispos, alinhado à tradição católica e ortodoxa.

O anúncio foi feito pelo cardeal William Joseph Levada, prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, e pelo arcebispo Joseph Di Noia, secretário da Congregação para o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos.

Levada informou que, com esta Constituição Apostólica, a Igreja Católica responde aos inúmeros pedidos feitos à Santa Sé por grupos anglicanos de diferentes países que desejam entrar em plena e visível comunhão com a Igreja Católica.

Com esse objetivo, o Papa Bento XVI aprovou uma estrutura canônica que prevê a criação de ordinariatos pessoais, ou seja, cada comunidade anglicana que entrar na Igreja Católica dependerá de um bispo particular e não do diocesano, como ocorre com o Opus Dei.

Assim, as comunidades anglicanas conservarão seu patrimônio espiritual e litúrgico anglicano.

A Constituição Apostólica contempla que o chefe da diocese possa ser um sacerdote ou um bispo não casado.

Os ordinariatos pessoais serão criados conforme as necessidades.

O cardeal encarregado da defesa da ortodoxia da fé católica detalhou que a medida do Vaticano está alinhada ao compromisso para o diálogo ecumênico.

"A iniciativa é consequência do desejo de vários grupos de anglicanos de compartilhar a fé católica. Por isso, chegou o tempo de expressar essa união implícita de uma forma visível de plena comunhão", acrescentou Levada.
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Matéria extraida da EFE no site G1.
Endereço: http://g1.globo.com/Noticias/Mundo/0,,MUL1348257-5602,00-VATICANO+APROVA+NORMATIVA+ESPECIAL+PARA+ACOLHER+ANGLICANOS.html

07 Outubro, 2009

DAVI, o mentiroso & DOEGUE, o fofoqueiro

A Mentira de Davi — “Naquele dia, quando vi Doegue lá, eu sabia que ele não deixaria de contar tudo a Saul. Assim, eu sou culpado da morte de todos...”, reconheceu Davi em 1 Sm 22:22.

Davi, fugindo da perseguição do rei Saul (1Sm 19:10-11), chega a um lugarejo chamado Nobe (1Sm 21:1) onde viviam sacerdotes e pediu pão (1Sm 21:3) e uma espada (1Sm 8). Davi mente ao sacerdote Aimeleque dizendo que estava ali a mando do rei Saul (1Sm 21:1 e 8). Aimeleque acreditando na mentira de Davi, atende ao seu pedido. A mentira de Davi coloca Aimeleque e toda a população de Nobe como alvo da ira de um rei ensandecido pelo ciúme e pela raiva (1Sm 18:6-16).

A fofoca de Doegue — “Acontece que Doegue, o edomita, que era o chefe dos pastores de Saul, estava ali naquele dia porque tinha de cumprir um dever religioso” (1 Sm 21:7). E ele então ao encontrar-se com Saul e o grupo que procurava por Davi diz: “Eu vi quando Davi foi falar com Aimeleque... em Nobe, e como Aimeleque, a pedido dele, consultou ao Senhor, e lhe fez provisões, e lhe deu a espada de Golias, o filisteu” (1 Sm 22:9-10). A fococa pode até ser sobre algo verdadeiro, mas a verdade dita sem amor é tão do diabo quanto a mentira.

Aonde mentira, fofoca, alienação, omissão e insanidade levam...
Saul manda buscar Aimeleque e o acusar de traição: “Por que conspiraste contra mim, tu e Davi?” (1Sm 22:13). Aimeleque tenta de-fender-se acerca da acusação de traição: “o teu servo de nada soube de tudo isso, nem muito nem pouco” (1Sm 22:15). Ou seja, ele não sa-bia de nada; era um completo alienado. Mas o rei enraivecido depois da fofoca feita por Doegue já havia decidido crer na traição e definido o castigo: “morrerás, tu e toda a casa de teu pai”.

Como os militares que acompanhavam o rei Saul não aceitaram a ordem de matar os sacerdotes do Senhor, “então Saul disse a Doegue: — Mate-os você! E Doegue os matou. Nesse dia ele matou oitenta e cinco sacerdotes de Deus” (1 Sm 22:18). E os militares nada fizeram para impedir a louca e injusta ordem do Rei ensandecido. “Saul tam-bém mandou matar todos os outros moradores de Nobe, a cidade dos sacerdotes: homens e mulheres, meninos e criancinhas, o gado, ju-mentos e ovelhas—todos foram mortos”. (1Sm 22:19).

O pecado segrega, machuca, mata... por isso Deus abomina tanto o pecado e tão intensa e urgentemente deseja a conversão do pecador.

13 Agosto, 2009

Igrejas evangélicas promovem submissão acrítica, aponta consulta

Membros de diferentes tradições protestantes-evangélicas, procedentes de 12 países americanos, reuniram-se na quinta e sexta-feira, 6 e 7 de agosto, na Universidade Nacional da Costa Rica

Na consulta organizada pela Fraternidade Teológica Latino-Americana (FTL) sobre Igreja, poder e missão na América Latina, igrejas evangélicas foram criticadas por promoverem uma “submissão” acrítica dos cristãos a toda autoridade política, independente de suas características particulares ou como chegou ao poder.

Membros de diferentes tradições protestantes-evangélicas, procedentes de 12 países americanos, reuniram-se na quinta e sexta-feira, 6 e 7 de agosto, na Universidade Nacional da Costa Rica para analisar temas como A genealogia do poder: a Igreja de Corinto e a Igreja contemporânea; Vertentes teológicas que explicam o poder na Igreja; Os/as cristãos/as e a política do império estadunidense; Política e religião, velhos e novos atores.

Dois dos assuntos dominantes na consulta tiveram que ver com a relação das igrejas com os poderes seculares e como se dá a dinâmica e os abusos de poder nas igrejas. Sobre o primeiro tema, foi enfatizada a necessidade de clarificar a natureza do Estado.

Para Luis Scott, palestrante no evento, as passagens de Romanos 13 e Apocalipses 13 mostram duas visões diferentes sobre a relação dos cristãos com o poder, e expressam que não existe na Bíblia um modelo único sobre o que deve ser a relação Igreja-Estado.

Na conferência que tratou do poder dentro dos organismos eclesiais, Sharo Rosales disse que “o abuso espiritual é o abuso do poder em nome de Deus e da espiritualidade, causando dano não só à comunidade de fé, mas também a indivíduos e famílias, lesando a credibilidade na liderança cristã”.

Rosales traçou um perfil dos líderes que tendem a tais abusos, Costumam ser “pessoas inteligentes e carismáticas que atuam a partir de um paternalismo possessivo. Lutam constantemente pelo poder, não suportam a crítica, e, devido à baixa auto-estima, precisam ser afirmados”, procurando estar sempre no centro das atenções.

Ao final do evento, os participantes assinaram mensagem dirigida às Igrejas e ao povo hondurenho em que manifestam solidariedade pela situação de violência que o atemoriza e pedem às partes em conflito para que assinem o Acordo de San José, avalizado por organismos internacionais como a Organização de Estados Americanos (OEA), as Nações Unidas (ONU) e por boa parte da comunidade internacional.

“Fazemos um chamado à comunidade internacional para que jogue um papel mais ativo na intermediação com as partes em conflito e se restaure, o mais breve possível, a ordem legal constitucional que permita terminar com os momentos de angústia, preocupação e violência que hoje sofre a população civil. É evidente que a forma como esse problema será resolvido influirá em todos os países do continente e sentará um importante precedente”, conclui a mensagem.
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Matéria de Carlos Mondragón
San José, segunda-feira, 10 de agosto de 2009
Extraído de http://www.alcnoticias.org/interior.php?lang=689&codigo=14678

25 Julho, 2009

Discursos libertários do metodismo brasileiro no final da ditadura militar (1981-1984)- Por Vasni de Almeida

Resumo:
O metodismo brasileiro da primeira metade da década de 1980 cuidou em fazer circular em suas revistas as mensagens identificadas com o evangelismo social e libertário, uma opção teológica que experimentada pelo catolicismo e demais igrejas protestantes de origens reformadas. Os dizeres sobre temas políticos e de construção da cidadania não eram novidade no meio metodista. O evangelismo sustentado em obras de “misericórdia” é uma herança do seu fundador, John Wesley, todavia, foi na década de 1980 que ela se consubstanciou numa política clara de publicação.

Palavras-chave: Metodismo, política, sociedade e leitura

Introdução

Os metodistas, como todos os protestantes, ancoram boa parte de seus saberes - bases doutrinárias, perspectivas teológicas, visões de mundo, em textos impressos. A Bíblia é um desses textos, mas não o único. Outros ganham relevo, como os livros, os jornais e, principalmente as revistas. Tem sido assim desde o século XVI e o metodismo, como um dos últimos ramos de igrejas reformadas, não fugiu a isso. Quando essa igreja surgiu na Inglaterra, na primeira metade do século XVIII, suas orientações teológicas, seus princípios organizacionais e suas matrizes bíblicas circulavam entre os fiéis por meio do texto impresso. Quando iniciaram, de forma sistemática, suas atividades religiosas no Brasil, na década de 1870, o texto impresso tinha lugar privilegiado em seus projetos de evangelização. Em 1881, criaram o jornal “O Metodista Católico”, nome depois modificado para “Expositor Cristão”, para fugir às comparações com o catolicismo. Em seguida vieram as revistas para a formação religiosa da infância e demais publicações. Ao longo da primeira metade do século XX, várias revistas foram organizadas para atender as necessidades de leitura das diferentes faixas etárias daqueles que se tornariam membros da igreja.

Para além de espaços de leituras voltadas para a reflexão bíblico-teológica, ou mesmo de entretenimento, as revistas impressas indicavam o que os metodistas tinham a dizer sobre a sociedade, sobre a política e sobre os próprios metodistas. Temas circulantes na vida política nacional, ou mesmo de outras igrejas, ganhavam suas páginas.

Neste texto, busco apresentar as vozes do metodismo brasileiro sobre um período muito significativo para os grupos sociais historicamente envolvidos com a política, aqui compreendida em toda densidade e complexidade e não restrita à ação partidária: o final da ditadura militar, mais precisamente entre os anos 1982 e 1985. As mensagens metodistas de conteúdos políticos visavam alcançar uma quantidade maior de leitores. Ao permitirem que questões políticas fossem desenvolvidas em seus espaços de leitura de formação religiosa, mesmo com orientações bíblicas que lhes eram peculiares, os metodistas produziram o o Chartier chamou de “nicho social de recepção”(1999, p. 21). A receptividade dos textos versando sobre temas emanados da esfera política (quiça cultural) seria condicionada pelas circunstâncias sociais e culturais formativas da consciência dos leitores, que no limite, chancelariam os seus significados. A experiência dos leitores com os temas veiculados, adquirida por meio de leituras “outras”, daria sustentabilidade as interpretações dadas pelos autores dos estudos. A relação entre o anunciado e o saber do leitor se refere, no dizer de Iser “aos processos constitutivos pelos quais os textos experimentam na leitura”(1996, p. 52). As mensagens políticas de cidadania, dessa forma, não eram, como toda leitura, discursos neutros, antes, eram exteriorizações da percepção social (CHARTIER, 1990, p. 17). Na visão de mundo que externavam residia uma forma peculiar de identificação social.

Nas revistas Flâmula Juvenil, Cruz de Malta, Em Marcha e Voz Missionária encontramos as impressões desses protestantes sobre os debates a envolverem todos aqueles que se ocupavam da redemocratização do País, depois de vinte anos de vigência do regime ditatorial. Ainda que não haja referência expressa às ações dos militares, a insistência na publicação de temas sobre carestia, direitos humanos, igualdade de direitos, proteção à criança, reforma agrária, liberdade de expressão, políticas públicas e direitos da mulher revela a interpretação dos redatores e autores sobre a realidade social. Há que se considerar serem estas publicações permitidas pela oficialidade da Igreja.

As revistas: identificação, emissões e mediações

A Revista Flâmula Juvenil é destinada a faixa etária que se estende dos 11 aos 17 anos. É composta de estudos doutrinários e teológicos (temas e comentários bíblicos) e espaços para manifestações dos leitores (poesias, poemas, jograis, notícias das sociedades de juvenis). Publicada pela primeira vez em 1938, os autores dos estudos são escolhidos pelo editor, que por sua vez é indicado pelo colegiado de bispos da Igreja Metodista.

A Revista Cruz de Malta é uma publicação voltada à juventude metodista. Porém, nem sempre foi pensada para esse fim. Na década de 1960 funcionava como um espaço de representação do pensamento jovem da igreja, tal qual a revista Voz Missionária para as mulheres. Recebia artigos sobre teologia, sobre as atividades das sociedades metodistas de jovens, além de poesias, pensamentos e ilustrações pertinentes à juventude. Em 1965, seu conselho editorial era composto por pessoas que no futuro seriam lideranças de expressão da igreja, tais como Paulo Ayres Matos e Anivaldo Padilha. O primeiro se tornou bispo e o segundo foi, durante muitos anos, editor da revista ecumênica Tempo e Presença, bem como assessor sobre ecumenismo no metodismo brasileiro.

A Revista Em Marcha, publicada pela primeira vez em 1967, destina-se aos adultos (homens e mulheres) da Escola Dominical. As interpretações e comentários bíblicos dessa revista eram bem mais cuidadosos em relação ao vigor e espontaneidade dos estudos destinados aos adolescentes e jovens da igreja. Isso é compreensível, levando-se em consideração serem os seus leitores homens e mulheres que ultrapassavam os 50 anos, com a tendência de serem mais reticentes às mudanças que os chamados “progressistas” projetavam para a igreja. Mas nem por isso os temas que circulavam nas demais revistas deixavam de constar em suas propostas de estudos.

A Revista Voz Missionária foi criada em 1929, como publicação das sociedades metodistas de mulheres. Não é uma revista de natureza didática e pedagógica, destinada a servir de manual para a Escola Dominical. Para isso as mulheres metodistas utilizam as demais revistas da igreja. Sua finalidade é publicar textos identificados com a feminilidade metodista no Brasil. Os temas mais recorrentes envolvem a relação pais e filhos, as atividades femininas na igreja, comportamentos das crianças e adolescentes, os direitos das mulheres, saúde, além de ser espaço de divulgação de poemas, poesias e receitas de alimentos.

Do início até meados da década de 1980, o editor responsável pelas publicações metodistas, entre elas as quatro revistas em foco, foi Jorge Cândido Pereira Mesquita. A sub-secretaria para as escolas dominicais, o que no limite seria a responsável pela organização dos estudos, estava a cargo de Sérgio Marcus Pinto Lopes. São pessoas que, nas décadas seguintes ocupariam cargos de relevo nas instituições metodistas de ensino. O primeiro foi, durante muitos anos, o Secretário Executivo do Conselho Geral das Instituições Metodistas de Ensino (Cogeime) e o segundo chegou a ocupar uma das Vice-Reitorias da Universidade Metodista de Piracicaba (Unimep). O editor de arte era Laan Mendes de Barros, que ficou bastante conhecido por criações de ilustrações alternativas sobre a cultura brasileira. Eram e ainda são lideranças conhecidas por suas posturas progressistas, principalmente no que se refere aos aspectos políticos e sociais, dentro e fora da igreja.

Como essas revistas chegavam às Escolas Dominicais? Como seus conteúdos eram trabalhados entre os envolvidos com esse tipo de ensino religioso? Os estudos propostos, depois do crivo do sub-secretário para as escolas dominicais e do editor-chefe, eram enviados ao setor de publicação da Igreja, na década de 1980, a Imprensa Metodista. De quatro em quatro meses ou de três em três meses (o que dependia da política de publicação em curso) as igrejas locais, segundo a quantidade de alunos de cada faixa etária, faziam os pedidos das revistas. Os exemplares solicitados eram pagos pelas próprias igrejas locais. Logo no início do quadrimestre ou do trimestre, as revistas eram distribuídas aos alunos (as) e professores (as) quase sempre leigos (as) das igrejas, mas não havia restrição para que os clérigos (as) exercessem essa função. As mediações, fossem elas advindas de clérigos ou leigos, nem sempre garantiam o alcance dos objetivos propostos pelos emissores.

Política, sociedade e discursos libertários no final da ditadura militar

Não há como dissociar os dizeres libertários das publicações metodistas das mudanças sociais e políticas processadas no Brasil no final da década de 1970 e início da década de 1980. Nem mesmo dos discursos libertários produzidos nas demais instituições sociais que propugnavam pela redemocratização do País.

No campo das mudanças políticas há que se ressaltar o abrandamento da censura, ocorrido a partir de 1974, o desgaste do autoritarismo da “linha dura” dos militares e as eleições parlamentares de 1978, na qual a oposição, capitaneada pelo MDB, elegeu as maiorias dos deputados e senadores. Entre as mudanças sociais e econômicas encontram-se e crise do petróleo de 1974, que ruiu o que ainda restava do “milagre econômico”, a base de sustentação da política econômica dos militares, a Lei da Anistia assinada em 1979, permitindo a volta dos exilados políticos, as greves e movimentos dos metarlúgicos, bancários, professores e trabalhadores rurais, que em suas assembléias exigiam melhorias salariais e a volta da democracia (SKIDMORE, 1978, pp. 255-66). Partidos políticos de oposição aos militares, tais como o MDB e o recém fundado Partido dos Trabalhadores (PT), sindicatos operários, associações de bairros, sindicatos rurais, associações de professores, reproduziam em seus panfletos, boletins e jornais as denúncias contra a violação dos direitos humanos, contra a falta de liberdade e contra alto custo de vida que corroia salários e outros tipos de renda.

A esse tipo de contestação soma-se a conversão de grande parcela do catolicismo brasileiro ao evangelismo de libertação (KUCINSKI, 2001, p. 75,76). Ancorados nas doutrinas do Concílio Vaticano II, convocado pelo Papa João XVIII, e na Conferência de Medellín, muitos padres passaram a apoiar, desde o final da década de 1970, os movimentos organizados contra os militares, dentre eles as guerrilhas urbanas e rurais. As Comunidades Eclesiais de Base (CEB´s) arregimentavam fiéis que não se sentiam contemplados no tradicionalismo católico. Por outro lado, a hierarquia do catolicismo visualiza nessas comunidades e possibilidade de estabelecer diálogos com as camadas populares. As CEB´s seria, dessa forma, a presença do povo na Igreja Católica. A teologia que dava suporte ao ativismo religioso das comunidades de base seria a da Libertação. Os textos libertários de Frei Beto, do Frei Leonardo Boff, de Carlos Mesters, de Dom Hélder Câmara e de Oscar Beozzo, associados às categorias pedagógicas de Paulo Freire, abriam espaços para a reflexão e a opção de uma religiosidade voltada para os “pobres”, “oprimidos” ou simplesmente dos “excluídos”. Os evangelhos seriam interpretados à luz das necessidades das populações empobrecidas, incluindo nessa categoria os desempregados, os moradores de rua, os trabalhadores rurais sem terra, os migrantes, as crianças de rua, dentre outros.

No meio protestante, principalmente entre a juventude, professores e pastores ligados às faculdades de teologia, o evangelismo libertário seria assimilado à luz das reflexões de Richard Shaull, Niebur e de Rubem Alves. Esse último provocava o conservadorismo protestante com tese de doutorado publicada em 1982, cujo título Protestantismo e repressão, seria o livro de cabeceira de muitos novos pastores e lideranças leigas. As letras das canções que animavam as celebrações do evangelismo libertário eram sintomáticas da circularidade dos discursos contestários do período. Uma canção emblemática da adesão dos protestantes ao cristianismo dos pobres, composta pelo reverendo presbiteriano João Dias dizia “Que estou fazendo se sou crsitão / Se Cristo deu-me o seu perdão! / Há muitos pobres sem lar sem pão / Há muitas vidas sem salvação”.

A “opção pelos pobres” e o evangelismo libertário não eram desconhecidos dos protestantes e muito menos dos metodistas. No Concílio Geral da Igreja Metodista, de 1982, foi aprovado o Plano para a Vida e Missão da Igreja (PVMI), logo em seguida inseridos nos Cânones da igreja. O documento sinalizava para uma clara opção em guinar a igreja ao evangelismo social, agindo como instituição integrada a sociedade, com todos os seus problemas e conflitos. O plano foi bastante explícito na necessidade da igreja estar atenta ao seu entorno:

Há necessidade de conhecer o bairro, a cidade, o campo, o país, o continente, o mundo e os acontecimentos que os envolvem, porque e como ocorrem e suas conseqüências. Isto incluí conhecer as maneiras como as pessoas vivem e se organizam, são governadas e participam politicamente, e como isto pode ajudar ou atrapalhar a manifestação da vida abundante
(Cânones da Igreja Metodista, 1982, p. 69).

Os conteúdos de cada dos capítulos desse plano fazem remissão à necessidade de seus membros desenvolverem uma prática religiosa integral, ou seja, praticarem ações relacionadas à salvação das almas e aquelas relacionadas à salvação do corpo. Espírito e corpo, fé e sociedade, dessa forma, não seriam mais compreendidas como elementos dicotômicos. Essa opção, constituída a partir do esforço dos progressistas da igreja, ganharam as páginas de suas revistas na forma de discurso libertários.

As revistas metodistas e seus dizeres libertários

Flâmula Juvenil


No estudo 5 A Missão continua, da unidade Historia da Salvação, de 2 de agosto de 1981, escrita pela Revda. Isaly Rubim Duarte, aparece a seguinte compreensão do que seria a missão da Igreja Metodista:

Significa alimentar os famintos, trabalhar em favor dos direitos humanos e bem-estar existem entre as pessoas por causa de preconceitos, e protege o meio ambiente para a sobrevivência da raça humana uma clama contra as injustiças sociais (Flâmula Juvenil, 3º trimestre de 1981, p. 17).

No estudo 2 Como perecia a realidade brasileira”, da unidade Nossa responsabilidade como cristão, de 13 de setembro de 1981, escrita pela professora Alda Belloto, destaca-se as mazelas sociais do final da ditadura no Brasil:

A inflação cada ver mais vem maltratando o nosso povo já tão sofrido, sem oportunidade mais justas; os salários baixos causam falta dos alimentos adequada, e daí a falta de saúde, de roupa, de educação. O empobrecimento leva ao desemprego, ao sub-emprego, à prostituição e até ao crime.

E ainda:

Extensões de terras são também dosa verdadeiros donos, os índios, e retidas por brasileiros a estrangeiros poderosos. Grandes colheitas de soja são vendidas para o exterior, enquanto não existe o suficiente nem para o consumo interno. A Amazônia está sendo devastada, nossos rios poluídos, a natureza descuida pela ganância de lucro de alguns (Flâmula Juvenil, 3º trimestre 1981, p. 36)

No estudo 4 A participação do cristão na realidade brasileira , da unidade A sociedade humana, nossa responsabilidade como cristão, de 30 de setembro de 1981, escrita também por Alba Belloto, explicita-se a compreensão da autora sobre estrutura social. Ao explicar que a estrutura social era apoderada por grupos social de privilégio, a autora do texto enfatiza:

Todos nós somos atingidos ou influenciados por estruturas. Alguns grupos se tornam vítimas delas porque sofrem discriminações pelas leis ou práticas grupos mais poderosos, ou pelas atitudes de algumas pessoas na sociedade. Essas vítimas de estruturas fracas e injustas podem perder muitos de seus direitos, como por exemplo, o de se desenvolver, estudar, se divertir ou trabalhar. As conseqüências desta situação podem ser fome, violência, prostituição, pobreza, falta de habitação e emprego, etc. (Flâmula Juvenil 3º trimestre de 1981, p. 42-43)

No quarto trimestre de 1981, a primeira unidade foi escrita por Nancy Pereira Cardoso, que se tornaria uma das principais biblistas do protestantismo brasileiro e uma das principais lideranças feminista dentro da Igreja Metodista. Na unidade Meu encontro com o próximo, logo no primeiro estudo, amparada em textos bíblicos do Novo Testamento, a autora tece uma estratégia para que o adolescente reconhecesse o próximo na figura dos seus amigos e das pessoas próximas. No segundo estudo Meu encontro com meu próximo brasileiro na comunidade onde vive, ela expande esse próximo para o povo brasileiro. As imagens utilizadas para ilustrar o texto eram fortes: trabalhadores ao redor dos caminhões que os levavam ao trabalho, pessoas remando pequenos barcos em ruas alagadas, um policial imobilizando um rapaz e uma criança com olhos tristes descalça e sentada no chão. O texto que acompanhava as imagens denunciava: “Em nossos dias, o Brasil e o povo brasileiro também passam por transformações. Situações de desigualdades e preconceitos têm separado o nosso povo”. Em seguida, a autora esclarece como os adolescentes poderiam conhecer o povo brasileiro:

Conhecendo nossa cultura, respeitando as diferenças, tornando o evangelho acessivo, cantando canções que todos possam entender e cantar, tornando nossas igrejas mais simpáticas à comunidade, participando de acontecimentos do bairro, da escola e da cidade, sempre testemunhando o amor de Deus, estamos nos encontrando com este que está tão próximo e também tão distante: o povo brasileiro (Flâmula Juvenil, 4º trimestre, 1981, p. 7)

No mesmo estudo foi publicado um poema de uma adolescente sobre a intolerância. Nancy Cardoso Pereira então utilizou três fotografias para ilustrar o texto: uma contendo um grupo de homens de uma tribo do continente africano; outra contendo um homem indígena e outra com barracos de favela urbana. O conjunto de imagens objetivava mostrar que a intolerância levava ao aprofundamento da desigualdade (Flâmula Juvenil, 4º trimestre, 1981, p.23).

Revista Cruz de Malta

Na década de 1980, essa revista não se configurava mais como uma publicação de representação das sociedades metodistas de jovens, tal qual na década de 1960. Ela se tornara mais uma publicação da área da educação religiosa da igreja, ou seja, da Escola Dominical. Notadamente a partir de 1982, passou a se ocupar com temas que circulavam nas cartilhas dos movimentos sociais em ascensão naquele período de enfraquecimento da linha dura da ditadura militar. Temas que também circulavam nos meios acadêmicos de influência marxista. A redemocratização do país, estampada nas greves operárias, nas manifestações massivas dos professores dom ensino básico, nas campanhas salariais dos canavieiros e nas reivindicações das associações de bairro estava presente, de forma explícita ou implícita em seus estudos. Os textos e comentários bíblicos eram ilustrados com fotografias e charges que lembravam trabalhadores reunidos em assembléias, moradores de rua em situações desumanas e trabalhadores rurais em situação de perigo. Os grupos sociais em movimento por democracia, liberdade e melhores condições salariais e de vida (saúde, habitação, segurança) estavam representados nas letras destinadas aos jovens metodistas.

A primeira unidade do segundo quadrimestre de 1982 trouxe como referência um título bastante significativo para o período: Oportunidades existentes para o engajamento. O termo engajar, muito comum entre os ativistas dos movimentos sociais do final da década de 1970 e inicio da década de 1980, bem como dos manuais das Comunidades Eclesiais de Base (Ceb´s) encontrava acolhida na tinta dos autores. O autor do primeiro estudo dessa unidade publicou uma entrevista realizada com Nancy Cardoso Pereira, então participando de um projeto de missionárias protestantes na Favela da Rocinha, na cidade do Rio de Janeiro. Quando indagada sobre o que a Igreja Metodista poderia fazer para melhorar as condições de vida dos moradores daquela localidade, a entrevistada assim se expressou, após discorrer sobre problemas envolvendo questões salariais, de saúde, de segurança, lazer, moradia e transporte:

Ninguém vai resolver esses problemas por essas comunidades. Elas, e só elas, através de organizações e reivindicações de lutas e pressões é que vão conquistar o que lhes pertence. A igreja não vai resolver isso. A igreja vai abrir espaços físicos, vai usar seu patrimônio e seus orçamentos para possibilitar essas organizações, vai abrir creches para que as mulheres equilibrem a renda da família, orientar famílias, oferecer lazer a atividades sadias. A igreja vai anunciar o Reino de Deus, a libertação e renovação, os ensinos de Jesus, atualizando e situando o testemunho, clareando os escuros da injustiça e convidando as comunidades a pensar em grupos e apoiando suas iniciativas [...]
(Revista Cruz de Malta, 2º quadrimestre de 1982, p.8).

No estudo O dom supremo para a realização da missão, de 1982, logo acima de um texto versando sobre as inúmeras dificuldades pelas quais passava o país, foi publicado uma ilustração de um soldado perseguindo um fugitivo sob o olhar assustado de um mendigo. Imagens que revelam discursos sociais de contestação, de denúncias, comuns nos meios de comunicação elaborados pelos sindicatos operários, pelos movimentos de trabalhadores rurais, pelas associações de bairro e pelas comunidades de base.

No estudo 3, da unidade A desumanização do ser humano, que trouxe como título O sistema econômico e a desumanização, foi dedicado a esclarecer os processos sociais que agrediam a plenitude do ser. Para os redatores da revista as estruturas econômicas foram pensadas historicamente para garantir o lucro de uns poucos. Os termos utilizados, como lucros, opressão, sistema econômico, em muito eram devedores das categorias marxistas de análise histórica. Para os redatores, a culpa da desumanização estava no sistema econômico injusto.

Assim o sistema econômico se torna opressivo e desumanizante. As fábricas poluem os rios e a atmosfera, para não gastar dinheiro em medidas antipoluentes. Os Diretores reprimem movimentos operários para não pagar reivindicações dos trabalhadores por salários mais justos. Os latifundiários defendem suas terras com pistoleiros particulares e combatem todos os esforços na direção de uma reforma agrária (Revista Cruz de Malta, 2º quadrimestre de 1982, pp. 59-60)

No mesmo estudo foi publicada uma entrevista em que o bispo Paulo Ayres Matos teceu sérias críticas aos “poderosos”. Nessa entrevista, a própria igreja foi alçada a condição de responsável pela desumanização do ser humano.

Ora, a Igreja tem vivido momentos de tranqüilidade e até mesmo de uma certa respeitabilidade mundana, quando se tem acomodada aos poderosos deste mundo, pois fica, não ao lado dos despojados do poder, mas ao lado dos poderosos e, portanto, vive em paz e tranqüilidade... (Revista Cruz de Malta, 2º quadrimestre de 1982, pp. 60-61).

Não somente a manifestação do bispo, muito conhecido no metodismo brasileiro por sua defesa do ecumenismo e dos movimentos populares, mas todas as expressões dos redatores procuravam formar as opiniões. Buscavam influenciar os jovens leitores metodistas a partir das concepções de lideranças esclarecidas da igreja. A bem da verdade, essa foi uma das fases de maior influência da mentalidade democrática e progressista no metodismo brasileiro.

A edição do terceiro quadrimestre de 1982 continuou versando sobre a desumanização do ser humano. No estudo Forças desumanizantes da atualidade: os meios de comunicação, depois de tecer duras críticas aos conteúdos das novelas, dos filmes estrangeiros, das publicidades e propagandas, os redatores apontaram a juventude da igreja que na área política a desumanização se processava por meio

[...] das mais variadas formas de censura que privam o cidadão de conhecer a verdade, além de mantê-lo escravo de uma ideologia dominante. Então ele perde a capacidade crítica, passando a aceitar passivamente “as verdades” ditadas pelo ditador
(Revista Cruz de Malta, 3º quadrimestre de 1982, p. 5).

No estudo Forças desumanizantes da atualidade: o sistema de ensino, do mesmo quadrimestre, foi diagnosticado o que uma escola deveria fazer ou não para se tornar humanizadora, bem ao estilo das categorias pedagógicas de Paulo Freire:

A escola não deve ser quisto, mas sim um centro comunitário a serviço dos grupos sociais. A escola deve se inter-relacionar com todo o equipamento coletivo, exercendo uma função educativa e produtiva nos escritórios, fábricas, granjas, fazendas, oficinas, agências, hospitais, repartições etc. Porque hoje todos devem ensinar todos a aprender com todos (Revista Cruz de Malta, 3º quadrimestre, 1982, p. 10).

As críticas partiam em várias direções: escolas, governos, meios de comunicação e até mesmo a própria Igreja Metodista, acusada de se manter fechada às transformações que se processavam na sociedade. No estudo Discernimento: profetas falsos e profetas verdadeiros foi publicado uma das manifestações mais incisivas dos progressistas que escreviam para as revistas de escolas dominicais do período. Ao se referirem aos “pastores televisivos”, demonstraram o quanto suas letras estavam afinadas com os discursos libertários da época:

Os cristãos precisam discernir o fato de que alguns falsos profetas de hoje levantam elevadas cifras para construir seus impérios, levam uma vida burguesa sem se preocupar com os necessitados ou com os países explorados. Alguns tiveram o espantoso lucro de 80 milhões de dólares durante um só ano. O mais perigoso disso tudo é que estão a serviço de grupos ou governos poderosos. Visam tornar os países latinos e africanos em satélites dóceis de suas garras exploradoras. Há uma ideologia de dominação atrás dos cânticos, mensagens e cruzadas. Por isso é necessário discernir os espíritos para não ser arrastado ou dominado por eles (Revista Cruz de Malta, 3º quadrimestre de 1982, p. 34).

A linguagem para a juventude tinha seu caudal agressivo. Para os articulistas não poderia ser diferente, já que a maioria dos leitores dessa revista estava nos bancos escolares do ensino superior, então sob forte influência do marxismo.

Revista Em Marcha

Com o título Nossa vida em clima de mudança, da unidade do primeiro quadrimestre de 1982, propôs-se mostrar o que na vida das pessoas tinha ou não possibilidades de mudar. No estudo Deus e as mudanças: juízo e revelação, o exemplo utilizado para identificar situações possíveis de serem mudadas foi a vida de um migrante nordestino na cidade de São Paulo. Os redatores tiveram todo o cuidado em apresentar a temática, já que o público leitor, muitos dos quais senhores e senhores de classe média, eram pouco afeitos a debaterem assuntos de cunho político e social em seus espaços de aprendizagem religiosa. Para que a vida do migrante fosse analisada na perspectiva bíblica, o esteio interpretativo foi o exílio de José, um dos filhos de Jacó, no Egito. A comparação entre o personagem bíblico e o migrante nordestino foi inevitável (Revista Em Marcha, 1º quadrimestre de 1982, p. 7,8).

No estudo A gravidade do pecado humano, da unidade A maior tragédia da humanidade: o pecado, Warren C. Wofford, deslocou as reflexões sobre o pecado da esfera estritamente individual para os pecados cometidos pela nação. Uma das questões lançadas aos leitores foi a de que o país tinha uma “uma grande indústria de material bélico, não somente para seu uso para exportação. Reconhecemos a presença do pecado nisso?” (Revista Em Marcha, 1º quadrimestre de 1982, p. 17).

No estudo As origens do pecado humano, da mesma unidade, Wofford reforçou a idéia de que o pecado estava enraizado nas estruturas sociais:

Os poderes governamentais refletem a presença dom pecado coletivo quando privilégios são mais importantes que valores humanos. As estruturas sociais – que marginalizam os pobres ou os grupos indefesos- os sistemas opressores e instituições que se aproveitam das pessoas, pecam contra Deus e a sociedade (Revista Em Marcha, 1º quadrimestre de 1982, p. 21).

As categorias estruturalistas de análise social entraram novamente na condução dos discursos religiosos. No estudo O caráter dissimulador do pecado, Wofford foi mais direto ao acusar membros da igreja de colaborarem para a perpetuação de situações sociais injustas:

Quantos homens da nossa igreja são proprietários que querem obter maiores lucros possíveis, mesmo à custa dos menos privilegiados? Quantos são donos de pequenas indústrias e são maus pagadores? Quantos tentam explorar seus empregados? (Revista Em Marcha, 1º quadrimestre de 1982, p. 26).

Na busca de fortalecer a interpretação bíblico-teológica do pecado como resultante de práticas sociais injustas, o mesmo autor criou a alegoria de um membro da igreja na condição de chefe de trabalhadores rurais:

O Vito Expedito é capataz da fazenda. Ele sabe que a turma de gente que emprega na cidade para colher cana no canavial passa o dia todo sem uma comida quente. Sua marmita é sempre pobre e fraca. Mas o Vito não tem não tem nada com isso. Eles aceitam o emprego porque querem. A paga é pouco e não podem aquecer a comida. Mas eles não sabem disso ao serem empregados. O Vito acha que está cumprindo seu dever. Aliás, para ele cumprir o dever é uma questão de honra. Ele prometeu ao pastor sempre ler a Bíblia e fazer o culto doméstico em casa e nunca deixa de cumprir a promessa (Revista Em Marcha, 1º quadrimestre de 1982, p. 36).

O foco central dos exemplos é reiterar a conexão entre a idéia do pecado e a injustiça social. O pecado foi deslocado da sua condição de ato moral individual para ser uma conseqüência de uma ação social. O discurso libertário fincava raízes nas letras a serem ensinadas nas escolas dominicais.

Os estudos do segundo quadrimestre de 1982 contaram com a colaboração de personalidades que há tempos compunham o quadro dos chamados defensores do evangelismo social da igreja. Eram esses Clory Trindade de Oliveira, Isac Aço e Nelson Luiz Campos Leite. O primeiro foi diretor do Instituto Americano de Lins (Ialim). Os dois últimos eram, à época, bispos da Igreja Metodista. Não eram pessoas desconhecidas e suas idéias circulavam em várias ambientes religiosos do metodismo.

A quinta parte da unidade A revisão e a renovação dos papéis do homem e da mulher na sociedade, publicada com título Homens e mulheres na força do trabalho expressa bem a circularidade de temas políticos, econômicos e sociais nos espaços de formação religiosa dos metodistas. O estudo indicava a necessidade de os membros dessa faixa etária refletirem sobre as condições de trabalho a que estavam expostos os homens e mulheres do período.

No terceiro quadrimestre de 1982, na unidade Mensagens bíblicas nascidas de diversas realidades da época, no estudo A igreja frente ao Estado, Ronaldo Satler Rosa, então responsável pela Pastoral da Faculdade de Teologia da IM, em São Bernardo Campo, SP, afirma com base em relatos bíblicos do Antigo e Novo Testamento, que a igreja deveria se posicionar ao lado do Estado enquanto esse estivesse a serviço do povo. Quando este demonstrasse estar do lado dos “poderosos”, a igreja deveria se opor a ele (Revista Em Marcha, 3º quadrimestre de 1982, P. 12).

Os temas desenvolvidos nessa revista convergem para uma nova percepção de vivência religiosa, publicados com uma linguagem pouco conhecida dos grupos mais conservadores do protestantismo brasileiro. As assertivas procuravam despertar os membros adultos da igreja para uma prática religiosa com mais participação política e mais tolerância. Ao comporem os estudos a partir de conceitos próprios dos ativistas de esquerda da década de 1980, os autores da revista assumiam o lema da igreja dos oprimidos.

Revista Voz Missionária

Em 1982, o Conselho de Redação dessa revista era composto por Alice Gerab Labak (coordenadora), Wanda Moraes de Almeida, Wilma Joan Roberts e Zuleica de Castro Coimbra Mesquita. Foi nessa década que os conteúdos da revista foram mudando de foco e criando cumplicidades com os dizeres das teologias libertárias do cristianismo brasileiro. Expressões como “libertação para os oprimidos e estrangeiros”, “ecumenismo” e “direitos da criança e da mulher” começaram a se tornar freqüentes em suas páginas.

No quarto trimestre de 1982, no artigo Derrubando mitos e barreiras, uma crítica bastante circunstanciada foi endereçada aos programas televisivos, considerados pela equipe de redação como sendo de baixo nível. Na visão das redatoras, programas como O homem do sapato branco, Viva o gordo, Os trapalhões, Chacrinha, focalizavam as mulheres apenas por meio dos aspectos sensuais, depreciando as demais características femininas (Revista Voz Missionária, 4º trimestre de 1982, p. 27).

As ilustrações estampadas capas e nas páginas da revista revelem também o opção por um evangelismo social e libertário. Imagens contendo mulheres negras em situações de pobreza, crianças expostas a lugares insalubres, idosos vivendo isolados passaram a ser imagens cada vez mais freqüentes. O poema da colaboradora Vera Baggio Dias Alvim, da mesma edição, sinaliza para as situações que inquietavam as mulheres:

Fico observando
Aquela mulher pobre, doente,
carregada de filhos...
Com a mão estendida.
Aqueles meninos maltrapilhos,
Sujos, importunos...
com as mãos estendidas.
Aquelas meninas mirradas,
Rotas e rasgadas...
Com as mãos estendidas
(Revista Voz Missionária, 4 trimestre de 1982, p. 33).

A edição do terceiro trimestre de 1983 trouxe um poema do Bispo Sady Machado da Silva versando sobre os desfiles militares do Dia da Independência. Para o clérigo, o país deveria ser não apenas o da disciplina dos passos, da ordenação das armas e do esplendor dos uniformes.

Mas eu quero ser o Brasil Povo em sua totalidade
Na totalidade de sua grandeza e da sua miséria...
Nos contornos de seus sonhos
E na angústia de suas dores
e horrores medonhos...
Na pobreza que campeia
E na poesia da lua cheia...
Na luta contra a exploração
E nos ensinos do Evangelho
que tem a solução...
No soldado que marcha na rua
Mas também naqueles brasileiros
que nem podem marchar
Porque tem a barriga vazia
E a alma nua...
(Revista Voz Missionária, 3º trimestre de 1983, p. 9).

A edição do quarto trimestre de 1983 trouxe na capa o retrato de uma mulher sentada na calçada, ao lado de uma sacola com pães, sandálias soltas, cabisbaixa. No muro da calçada trazia a seguinte frase: “Maria resignada sentada à beira da calçada...”. Nas páginas desse número da revista as redatoras deixaram evidente a necessidade de uma prática religiosa que não excluísse os pobres. É essa opção religiosa que se depreende da leitura da oração publicada:

Com teu poder, Senhor, ajuda-nos a estarmos sempre próximos aos pobres e necessitados, darmos amor aos que tem ódio, a consolar os que choram, a nos batermos pelos injustamente perseguidos pela justiça, a enxergarmos de olhos abertos e coração limpo a realidade que nos cerca [...]
(Revista Voz Missionária, 4º trimestre de 1983, p. 9).

A proposta de jogral para as celebrações natalinas de 1983, composta por Jeni Lustosa não fugiu aos temas que inquietavam os movimentos de mulheres que se organizavam na década de 1980.

[...] Maria solteira,
Maria operária
Pagará um salário pro filho salvar
Nos braços jazia, rígida e fria
Olhos baços... morto o olhar [...]
(Revista Voz Missionária, 4º trimestre de 1983, p. 23).

A edição do quarto trimestre de 1985 trouxe um poema adaptado de um texto de Elizabeth Tápia. Dentre as manifestações políticas até aqui apresentadas, nenhuma expressa, de forma tão veemente, os clamores por uma prática religiosa mais compromissada com as mudanças sociais em curso no período:

Trabalho constantemente desafiada
Confrontada pela necessidade da igreja e
da sociedade no Brasil e no mundo inteiro.
Tenho raiva das estruturas e dos poderes
que criam todas as formas de opressão,
exploração e indignidade.
Sou testemunha de gemidos, lágrimas,
estandartes e punhos cerrados de meu povo.
Posso ouvir suas canções de libertação,
suas orações cheias de esperança e
seus passos marchando na direção da
justiça e da liberdade
(Revista Voz Missionária, 4º trimestre de 1985, p. 15).

Parte do texto acima compunha os cartazes que os ativistas por democracia utilizavam para animar encontros, cursos de formação e congressos de trabalhadores da década de 1980.


Considerações finais

O tratamento destinado aos temas aponta para mudanças e permanências de concepções religiosas e políticas. Revelam ecumenismos, inovações teológicas e discursos religiosos de conotação política. Os textos circulantes nas revistas de escolas dominicais garantiram uma formação religiosa eficaz do ponto de vista de seus autores? Eles seriam constituintes de uma nova mentalidade religiosa? Certamente que não. Devemos lembrar que os estudos eram mediados por professores e professoras das igrejas locais, muitos sem formação teológica e bíblica necessária para desvendar a complexidade implícita nas temáticas apresentadas. Há que se ressaltar que nem sempre uma formação bíblica e teológica se traduziria na garantia da multiplicação dos discursos libertários. Mas deve-se levar em consideração que muitos dos professores e professoras que lidavam com as escolas dominicais não coadunavam com o tratamento dispensado aos temas pelos autores. Havia sempre a possibilidade de interpretações não tencionadas pelos autores dos estudos. Ademais, em se tratando de textos escritos, há sempre as apropriações, as adesões, as rejeições, as adequações. [

Os textos libertários desse período revelam, todavia, tentativas de educar, de convencer e de converter. Indicam ainda a legitimidade das autorias, pois esses não produziram um saber às expensas do comando da igreja. Antes, foram autorizados pelas lideranças da igreja para ser a expressão de sua vontade e de sua visão sobre a sociedade. Quem produziu os textos sobre temáticas que extrapolavam o discurso específico do mundo religioso estava afinado com uma concepção de igreja. Assim pensavam as lideranças do metodismo, caso contrário a escrita libertária seria interditada. Para além da chancela dos bispos, os textos das revistas eram legitimados pela circularidade dos temas nos demais espaços de comunicações dos demais grupos sociais.


Referências bibliográficas

CHARTIER, Roger. A História Cultural: entre práticas e representações. Lisboa:Difel; Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1990.

___________Roger. A ordem dos livros: leitores, autores e bibliotecas na Europa entre os séculos XIV e XVIII. Brasília: Editora da Unb, 1999.

ISER, Wolgang. O ato da leitura: uma teoria do efeito estético. São Paulo: Ed. 34, 1996.
KUCINSKI, Bernardo. O fim da ditadura militar. São Paulo Contexto, 2001.

REVISTA CRUZ DE MALTA. Biblioteca da Faculdade de Teologia da Igreja Metodista: São Bernardo do Campo, 1982-1985.

REVISTA EM MARCHA. Biblioteca da Faculdade de Teologia da Igreja Metodista: São Bernardo do Campo, 1982-1985.

REVISTA FLÂMULA JUVENIL. Biblioteca da Faculdade de Teologia da Igreja Metodista: São Bernardo do Campo, 1982-1985.

REVISTA VOZ MISSIONÁRIA. Biblioteca da Faculdade de Teologia da Igreja Metodista: São Bernardo do Campo, 1982-1985.

SKIDMORE, Thomas E. Uma história do Brasil. São Paulo: Paz e Terra, 198.

15 Julho, 2009

Entre o aprisco e o curral (João 10.1-7) - Pelo Bispo Josué Adam Lazier

Encontramos figuras que são utilizadas metaforicamente para indicar a Igreja. Entre elas, a Igreja tem sido identificada como o aprisco onde as ovelhas se encontram, se aquecem e se protegem. No aprisco, considerando a perspectiva bíblico-teológica, as ovelhas conhecem o seu pastor. A figura do aprisco indica mais do que meramente um local onde as ovelhas se abrigam, indica a relação de confiança entre as ovelhas e o pastor. A palavra grega utilizada apresenta este sentido. “Parece ser um quintal na frente da casa, cercado por um muro de pedras que, provavelmente, tinha abrolhos em cima” (1).

Esta figura que indica algo simples e tão familiar ao povo da época é utilizada pelo evangelista João para ilustrar a relação de pastoreio de Jesus para com os discípulos (João 10.1-7). Assim, o autor bíblico descreve esta relação entre pastor e ovelhas.
As ovelhas sabem que o pastor quer o bem delas e sempre que se dirige a elas é para seu bem. As ovelhas não temem o seu pastor, pelo contrário, o respeitam pelo cuidado e pela dedicação que oferece indistintamente a todas elas.

As ovelhas ouvem a voz do seu pastor. Um pastor de ovelhas comentando este texto diz o seguinte: “quando o pastor as chama é com propósito específico; tem em mente o interesse das ovelhas. Não é uma coisa que ele faz só para se divertir ou passar o tempo” (2). Que palavras instigantes deste pastor quando afirma que o pastoreio no contexto do aprisco não é para divertimento do pastor ou passa tempo, mas pelo contrário, é para o bem das ovelhas.

A expressão elas ouvem a sua voz é uma das principais características do relacionamento entre o pastor e suas ovelhas. No versículo 3 é dito que as ovelhas ouvem a voz do pastor. O sentido da palavra é de prestar atenção, entender, aprender, pois a voz é conhecida. No versículo 4 é dito que as ovelhas reconhecem a voz. O sentido do termo utilizado é mais íntimo, expressando relacionamento, reconhecimento e respeito. Assim, as ovelhas seguem o seu pastor.

As ovelhas não seguem o condutor cuja voz não seja reconhecida. É importante destacar que a parábola contada por Jesus está cheia de afetividade e relacionamento pautado no respeito, na dignidade, na valorização, na busca pelo bem estar das ovelhas e cuidado extremo para com as que estão doentes. Não se trata de escutar e sim de conhecer a voz pela vivência.

Na parábola Jesus diz aos discípulos que Ele é a porta das ovelhas. O pastor sempre chega junto às suas ovelhas por esta porta que se abre e que não é arrombada pela força, pela arrogância, pelo desprezo, pela intimidação e pelo desamor daqueles que se utilizam da função do pastor. É o pastor de ovelhas que diz o seguinte para explicar esta relação entre o pastor e suas ovelhas: “não há nenhuma tensão nem violência neste relacionamento com o pastor de minha alma” (3).

O pastor guia as suas ovelhas, cuida de todas elas, vai atrás da que se perdeu, alimenta, protege e as conduz pelos caminhos seguros da vida. O ser pastor exige renúncia, humildade, amor, confiança, perseverança e doação, sem o que não se consegue conduzir as ovelhas.

Se não for segundo a perspectiva do aprisco, a Igreja pode ser identificada pela figura de um curral, lugar onde o gado é reunido para receber o sal, a ração e as marcas dos proprietários. Enquanto a figura do aprisco indica metaforicamente o encontro amoroso do pastor com suas ovelhas, o curral indica o local da “ração” para o gado, ou seja, onde metaforicamente as pessoas ruminam o “sal” ou a “ração” que lhes são oferecidos sem, no entanto, vivenciaram os aspectos que compreendem o aprisco.

O que diferencia a metáfora do aprisco para a do curral, é que nesta o “gado” recebe a ração e depois se dispersa de “cabeça baixa” para as pastagens, enquanto na primeira as ovelhas seguem o pastor pelos campos pulando altivas, como que brincando e “celebrando a vida”. Ou seja, no contexto do curral os membros da igreja são como o gado no curral e não como as ovelhas do aprisco. Isto faz uma grande diferença...

CITAÇÕES:
(1) RIENECKER, F. , ROGERS, C. Chave Lingüística do Novo Testamento Grego. São Paulo, SP: Edições Vida Nova, 1985, p. 178.
(2) KELLER, Phillip. Meditações de um leigo sobre o Bom Pastor e suas ovelhas – da perspectiva de um verdadeiro pastor de ovelhas. São Paulo, SP: Editora Vida, 1981, p. 36.
(3) KELLER, Phillip. Meditações de um leigo sobre o Bom Pastor e suas ovelhas – da perspectiva de um verdadeiro pastor de ovelhas. São Paulo, SP: Editora Vida, 1981, p. 58.

11 Julho, 2009

É necessário redescobrir a alegria de ser pastor de comunidade local e rever esse frisson pelo episcopado (Ronan Boechat de Amorim)

Eu sinto uma grande alegria, um grande privilégio e consequentemente uma grande responsabilidade em ser pastor de uma comunidade local.
Meu chamamento por Deus, meu preparo teológico no velho Seminário César Dacorso Filho, meus votos de presbítero da Igreja foram para que eu pudesse ser pastor.

Eu digo isso porque aparentemente desaprendemos a alegria, o grande privilégio e a conseqüente responsabilidade em sermos pastores e pastoras de uma comunidade local. O frisson é ser bispo ou bispa.
As conversas nos encontros de pastores giram em torno de “Você é candidato a bispo?” ou “Você já tem um candidato a bispo?”. Não raramente alguns disparam: “você está fazendo isso para se promover, porque quer ser bispo, não é?”. Ser pastor ou pastora parece-me, tornou-se apenas uma etapa necessária para se chegar ao episcopado da Igreja.

É verdade que a Palavra afirma que boa coisa aspira quem quer ser bispo. Não há pecado em desejar ser reconhecido pela Igreja como um bom pastor que pode exercer a função de bispo ou bispa. O problema não é o desejo em si, mas a “cultura” predominante em que isso se tornou na vida da igreja.

Ser bispo é moda, é um valor cultural. Cabe nos perguntar: “por que?”. Ainda não fiz essas perguntas para os meus amigos pastores e pastoras, mas imagino que eles dirão: “é para servir melhor ao Senhor nosso Deus!” ou “Como Bispo ou bispa vou poder implementar um projeto renovador para a igreja”. E é possível que respostas como essas sejam sinceras e verdadeiras. Mas a igreja local, pastoreando o povo de Deus, é ao meu ver o lugar por excelência para servir ao Senhor e para implementar um projeto renovador para a Igreja. O pastoreio de pessoas e não a administração da instituição é o terreno fértil para o melhor e mais leal serviço a Deus e para início de movimentos de santidade, de evangelização e despertamento missionário.

Já tive a ilusão que a mera ocupação de cargos e funções de poder, ou ao menos de algum poder, promovem mudanças. Já participei do Conselho Diretor do Bennett, do antigo Conselho Regional, da Coordenação Regional de Ação Missionária (COREAM), já fui o líder clérigo da delegação da I Região ao Concílio Nacional... e não se muda a igreja com leis, programas, projetos... Há propostas minhas de todo tipo em vários livros de atas, algumas que nunca saíram do papel... aprendi que as mudanças verdadeiras não nascem de “canetada” (decisão institucional), mas da oração e do pastoreio segundo o coração de Deus.

Há ainda presente essa ilusão: “quando eu chegar no poder vou fazer e acontecer!”. Desconfio que esse desejo em ser bispo ou bispa nasça dessa visão de mudar a igreja através da ocupação de postos chaves de poder. Mas há também outras desconfianças: servir-se e beneficiar-se do poder para promover a si mesmo ou um grupo. O Bispo tem poder sobre todos os pastores de sua região, pode viajar pra um lado e outro às custas da Igreja ou daqueles que o convidam. O Episcopado para muitos é o “ápice” de uma carreira pastoral, sinal de prestígio, de poder, de oportunidades.

Sinceramente devemos inverter essa ordem de prioridades, ou essa visão. O “ápice” na vida de um homem ou mulher chamados para o pastoreio deve ser o “apascentar o rebanho do Senhor”, e jamais dirigir uma instituição, ainda que haja as melhores intenções e propósitos. O “ápice” na vida de um homem ou mulher chamados para o pastoreio deve ser o pastoreio em si, ser colocado como ministro(a) de Deus sobre a vida de pessoas e ajudá-las a ver, experimentar, alimentar-se, desenvolverem-se, amadurecerem-se, serem remidas pelo sangue do Cordeiro derramado lá na Cruz, serem transformadas pela ação maravilhosa do Espírito Santo, serem curadas de seus pecados e de sua desumanidade, serem discipuladas para serem discípulas que fazem novos discípulos que fazem novos discípulos... terem seus nomes escritos no livro da vida.

O “ápice” na vida de um homem ou mulher chamados para o pastoreio deve ser presenciar os milagres de Deus que transformam pecadores em santos, perdidos em salvos, racistas e egoístas em irmãos, solitários em solidários... deve ser participar dos milagres de Deus na vida das pessoas e da comunidade, quando uma pessoa deixa de beber para a honra e glória de Deus, deixa de bater na esposa ou no esposo, deixa a prostituição ou o adultério, deixa a vida de violência e corrupção.

É maravilhoso demais participar do novo nascimento, da conversão e da nova vida dessas pessoas a quem o amor de Deus vai alcançando, vivificando, santificando, humanizando.

Precisamos redescobrir as alegrias, o grande privilégio e responsabilidade de estarmos na “infantaria” do “exército” de Deus; aqueles que estão na ponta, à frente, desguarnecidos de seus confortáveis escritórios e fortalezas, mas caminhando na dependência de Deus, sob as mãos daquele que nos refigera a alma e nos guia em direção aos pastos verdejantes. E assim, combatendo dia a dia o poder do mal que veio para matar, roubar e destruir, até que Deus o lance para sempre no poço de enxofre cujo fogo não se apaga nunca. Aleluia! Maranata, Senhor Jesus!

Precisamos redescobrir as alegrias, o grande privilégio e responsabilidade de sermos os que ouvem e falam em nome de Deus, os que no poder de Deus exortam e consolam o povo de Deus, os que se alegram com os que estão alegres e choram com os que estão tristes. Precisamos ser os que em nome de Deus profetizam palavras para encorajar e levantar os caídos, fortalecer os que têm as pernas bambas e as mãos destreinadas para a luta pelo Reino de Deus. Aqueles que acolhem e aconselham os que andam sem norte e sem discernimento. Precisamos ser aqueles a quem Deus coloca como líderes espirituais sobre seu povo.

Precisamos redescobrir as alegrias, o grande privilégio e responsabilidade de sermos pastores e pastoras de pessoas, de famílias, de comunidades... e vendo nessa atividade o “ápice” de qualquer ministério pastoral e espiritual.

Precisamos redescobrir as alegrias, o grande privilégio e responsabilidade de nos encontrarmos nos Concílios Distritais, Regionais e Nacional não para participarmos apenas da política eclesiástica (inclusive a eleição de bispos) e, às vezes, até de manipulações e conspirações de grupos. Precisamos viver Concílios para celebrar o que Deus tem feito em nós e através de nós, e sobretudo para ouvirmos coletivamente e como corpo deliberativo a voz de Deus, até que sejamos convencidos do caminho que Deus quer que a gente ande por ele.

Nos dois Concílios Nacionais que tive a oportunidade de ir, não tive o privilégio de discutir Missões, pois tudo gira em torno de eleição de bispos e bispas. No Concílio acontecido em Belo Horizonte eu propus com a maior cara de pau que a gente elegesse logo os bispos no primeiro dia, pois teríamos a liberdade de discutir os desafios missionários da Igreja. Fui repreendido duramente pela grande maioria, supostamente porque a igreja tinha de aprovar seu plano de trabalho para o qüinqüênio e só então eleger as pessoas mais adequadas para executar aquele plano. Eu reconheço que deveria ser assim, mas avalio que não é. Nada se fala, discute, pensa, propõe, etc, etc, etc, num Concílio Nacional sem que a discussão de eleição de bispos esteja por trás.

Eu ainda me lembro do último Concílio aqui da I Região, o que antecedeu ao último Concílio Geral. Havia em todo canto grupos conversando e até conchavando politicamente a eleição de alguns delegados(as) previamente definidos porque eles seriam eleitores desse ou daquele candidato a bispo(a). Eu tive a oportunidade de denunciar a hipocrisia de alguns que participavam das orações para que Deus abençoasse e dirigisse as eleições ao mesmo tempo que tinham em mãos a lista feita por integrantes e também lideranças de 2 ou 3 distritos com nomes previamente definidos para todos os cargos em disputa.

Ou oramos sinceramente e não fazemos as listas dos conchavos,
ou não oramos e permitimos as listas,
ou oramos e deixamos que as pessoas se associem livremente para as tais eleições.

O que não podemos é permitir a hipocrisia de alguns que se portam incovenientemente e afirmam que tudo o que fazem é santo, é de Deus. Não podemos usar o nome de Deus em vão, diz-nos o segundo Mandamento. Tenho estremecido ao ler os capítulos de Ezequiel sobre a responsabilidade dos pastores.

Já tive oportunidade de propor em dois Concílios Nacionais que o mandato dos Bispos fosse de no mínimo 10 anos, e que entre um Concílio Nacional com eleição de Bispo e outro, tivéssemos a oportunidade de ter Concílios Nacionais para discutir Missões.

Temos quantas cidades em nosso país onde não existe uma igreja Metodista?
Por que ainda não temos um programa de TV em rede nacional em horário nobre?
Por que nossas instituições de ensino andam capengando, quase sempre à beira da falência?
Por que ainda não temos trabalho metodista na Guiana Francesa (esse território francês é único “país” na América do Sul onde não há uma igreja metodista)?
Podemos elaborar um plano de ação onde a Igreja incentive seus membros a produzirem cultura, não necessariamente religiosa, mas com os conteúdos do Evangelho? Etc, etc...

Lamento que as sucessivas eleições e reeleições supostamente coloquem os Bispos eleitos como refém de grupos dentro da Igreja. Esse processo, ao meu ver, tira a autoridade do bispo, pois para ele dar continuidade ao seu trabalho, digamos, ele tem de estar permanentemente em estado de “campanha eleitoral” (e digo isso com temor e muito respeitosamente), não podem desagradar seu eleitorado com a disciplina eclesiástica e espiritual necessárias, quase sempre composto por pastores e pastoras que desejam ser bispos e bispas... É como a história de um funcionário de uma instituição que foi demitido e que para se vingar, tanto fez que acabou sendo eleito para o conselho diretor da tal instituição com a finalidade de pedir a cabeça do diretor que o demitiu...

Estou numa fase da minha vida que sinceramente não me importa quem seja o Bispo colocado sobre a minha vida ministerial, desde que seja um homem ou uma mulher de Deus. Importa é que Deus esteja na direção da Igreja. A Igreja local é um alívio e uma recompensa para o pastor(a) fiel, de fato. Mas se não tivermos bons bispos e bispas, sinceramente, não teremos boas igrejas também, porque o caráter pecaminoso de alguns líderes, acobertado por uns e outros, acabam disseminando a falta de temor e de santidde, bem como a consequente divisão no corpo de Cristo.

E hoje eu me sinto uma pessoa grata e abençoada pessoal e ministerialmente pelo nosso Bispo Paulo Lockmann. Meu candidato a Bispo será o Bispo Lockmann, até que Deus mude isso no meu coração ou que o Bispo diga que não deseja mais ser reeleito. Mas hoje eu sou um pastor que me declaro leal ao meu Bispo. Quantas vezes eu tiver oportunidade de votar, o meu primeiro e certeiro voto será para o Bispo Lockmann, cujo consolidado episcopado tem sido um grande facilitador para quem quer ser pastor. Ao Senhor toda honra e glória pela vida do Bispo da I Região Eclesiástica.

Não, não desejo ser bispo. Desejo ardentemente trabalhar na Igreja Local e em Missões. Uma igreja em cada cidade e em cada bairro, um grupo de discipulado em cada rua, é nisso que eu acredito. Precisamos espalhar a santidade bíblica por toda terra, ao mesmo tempo em que precisamos reformar a igreja para que esta possa reformar a nação. Precisamos ser uma igreja relevante na comunidade onde nossas Igrejas locais estão; nos bairros e cidades e nacionalmente também.

Precisamos redescobrir a alegria, privilégio e responsabilidade de sermos pastores e pastoras qualificados em uma igreja local, sem com isso negar a urgente necessidade da discussão de ministérios específicos para pastores e pastoras.

Mudar a cultura... desejar mais ardentemente o apostolado, o pastorado, o mestrado, o envio, a paixão pelas almas perdidas... uma igreja em cada cidade e bairro, um grupo de discipulado em cada rua... um milhão de discípulos só no Estado do Rio. Uma grande e relevante Igreja Metodista em cada uma das mais de mil favelas só da cidade do Rio de Janeiro...

Pela terceira vez Jesus lhe perguntou: Simão, filho de João, tu me amas? Pedro entristeceu-se por ele lhe ter dito, pela terceira vez: Tu me amas? E respondeu-lhe: Senhor, tu sabes todas as coisas, tu sabes que eu te amo. Jesus lhe disse: Apascenta as minhas ovelhas. (João 21:17)