15 setembro, 2007

Consumo sem consciência pode ser pecado, diz arcebispo luterano


Entrevista: Nilton Giese, , Suecia, Março 27, 2007
Consumir sem consciência de que produção e consumo têm a ver com justiça econômica pode ser uma forma de pecado, disse o arcebispo da Igreja Luterana da Suécia, Anders Wejryd, em entrevista coletiva, ontem, quando ele e o secretário geral da Federação Luterana Mundial (FLM), Ishamel Noko, analisaram a caminhada do organismo ecumênico nos 60 anos de existência.

Há 60 anos, Lund recebia representantes de igrejas luteranas das Américas, da Europa, da Ásia e da Oceania para a constituição da FLM, momento histórico agora relembrado na cidade universitária sueca, quando 500 delegados e delegadas de igrejas do mundo, convidados ecumênicos, assessores e jornalistas participaram, de 20 a 27 de março, dos festejos de aniversário da comunhão luterana.

No mesmo período, o Conselho da FLM reuniu-se em Lund para tratar de temas e assuntos que estarão na pauta da próxima Assembléia Geral, agendada para 2010, em Stuttgart, Alemanha, sob o tema “O pão nosso de cada dia dá-nos hoje”. Muitos se perguntam, em países pobres, “porque o pão não chega à minha mesa”, disse Noko na entrevista, mencionando que esse assunto e o tema da água e da desertificação serão temas da Assembléia.

Veja, abaixo, a entrevista de Wejryd e Noko:

Pergunta: A discussão sobre homossexualidade é uma ameaça à unidade da FLM?

Wejryd: Os novos temas que surgiram na Igreja sempre levaram à controvérsia, de modo especial os temas da ética social e pessoal. Um anglicano me disse, numa reunião de luteranos: “Posso fechar os olhos e pensar que estou entre anglicanos, mas vocês têm algo muito importante na confissão da doutrina luterana. Vocês têm em comum que a boa nova de Deus nos perdoa, nos une e quer nos salvar”. Minha impressão é que as igrejas têm que responder aos diferentes entornos culturais (africanos, europeus, latinos...) e isso pode levar a respostas distintas. Não creio que isso seja o tema que divida a igreja na Suécia. À igreja se pertence porque ela relaciona as pessoas com a fonte de vida.

Noko: Eu creio que sim, que possa ameaçar a unidade da igreja. Mas ameaça não rompe a unidade. Somente se pode deixar a igreja quando se abandona os demais. Deus nos convida para a festa da irmandade. Na comunhão pode ter pessoas que não nos agradam. Mas a festa da irmandade é de Deus. Nós somos mediadores. O anfitrião é Jesus Cristo. Há 60 anos a igreja sueca era a anfitriã de igrejas que não estavam em comunhão. Nem todos que chegaram a Lund em 1947 estavam de acordo em formar uma Federação. No entanto hoje, 60 anos depois, podemos compartilhar o ministério e a eucaristia. Aqui aprovamos a Declaração de Lund sobre o ministério episcopal. O entorno sueco nos facilitou uma neutralidade.

Pergunta: A Igreja da Suécia aceita o matrimônio homossexual?

Wejryd: Como igreja não o decidimos ainda. É uma proposta que será debatida nos próximos três, quatro meses. É um processo transparente. Como igreja, entendemos que deve ter uma forma para a união de todos os que querem viver como casal. Isto é importante: Como igreja entendemos que o matrimônio deve ser entre homem e mulher e para a igreja estar como casal é diferente que estar em matrimônio.

Pergunta: Com respeito à dívida externa, como vão dar seguimento às ações no futuro?

Noko: Algumas das dívidas contraídas por governos militares foram feitas sem consulta popular. Temos que falar desse ponto. O governo da Noruega levou a sério esse ponto de vista. Para nós, é importante que cidadãos em diversos países falem entre si. Quando se empresta dinheiro é importante que os governos tornem público em que será investido esse dinheiro. Se os governos do Norte perdoassem determinadas dívidas dos países do Sul, não haveria a necessidade de pedir novos empréstimos.

Wejryd: A decisão da Noruega nos encanta e como Igreja Luterana da Suécia estamos enviando carta ao governo sueco neste sentido. Estamos comprometidos com a temática.

Pergunta: O que a FLM pode fazer em relação à situação de violência na América Latina?

Noko: Tentamos informar a família mundial luterana a respeito dessa difícil situação na América Latina. Estamos animando igrejas e organismos internacionais para uma estratégia de acompanhamento, parecida aos anos 80, que chamamos de Corrente de Esperança. Uma vez por semana, chegava gente de fora, que visitava a igreja e suas comunidades em El Salvador. Essa foi uma forma de acompanhamento que se pode repetir em El Salvador e na Colômbia, por exemplo. Estamos conversando para que esse acompanhamento se repita e que seja um tema ecumênico.

Pergunta: As igrejas luteranas da América Latina apresentam um grande avivamento litúrgico. Vemos que a igreja sueca é muito cerimoniosa. É sempre assim?

Wejryd: Há muitos estilos diferentes de celebração. Nós não nos rebelamos contra o rito católico. O movimento carismático teve mais espaço nas igrejas livres. Nossa alegria pode ser chamada de “alegria solene”. Mas temos serviços mais abertos e mais dinâmicos no meio da semana.

Pergunta: O que fazer para ter maior participação de mulheres e jovens nos encontros da FLM?

Noko: Alegra-me que este tema tenha sensibilizado pessoas nesta semana. Os governos na Europa temem que os jovens fiquem em seus países e por isso têm dificuldades em dar-lhes visto. Além disso, as igrejas estão acostumadas a enviar seus bispos aos encontros internacionais. É preciso animar as igrejas para que enviem também alguns de seus jovens, que serão seus líderes no futuro.

Pergunta: Não se viu muitas conversas sobre o clima nesta semana. Como o tema estará no horizonte da FLM?

Noko: Vejo que aqui na Suécia esse é um tema muito importante também na igreja. Com o Conselho Mundial de Iglesias tivemos uma colaboração mais próxima a respeito desta temática.

Wejryd: O clima está cada dia pior. Aqui, na Suécia, temos nos aproximado da Igreja Ortodoxa em busca de um tipo de comunicação mais profunda sobre este tema, que é sobretudo um tema de expressão da vida. O consumo exagerado se converte numa religião e isso é muito perigoso para o nosso planeta. Discutimos e informamos nossas igrejas a respeito das condições em que determinados produtos são produzidos, ou o dano que fazem ao meio ambiente seguir produzindo esses produtos. Esta preocupação levou as igrejas a dizer que produção e consumo têm a ver com justiça. Assim que consumir sem consciência pode ser uma forma de pecado.

Noko: Nosso tema na Assembléia de 2010 será “O pão nosso de cada dia dá-nos hoje”. Muitos se perguntam nos países pobres porque o pão não chega à minha mesa? Vamos tratar do tema da água, do deserto. Em Mauritânia o deserto avança seis quilômetros por ano. Há um arbusto ali que pode parar o avanço do deserto. Temos que considerar essas alternativas, e, em conseqüência, temas como a produção e a distribuição do pão, no sentido aberto apresentado por Lutero no Catecismo Menor, farão parte da preparação da Assembléia em nossas igrejas.

Pergunta: Que comentários a FLM tem sobre o comércio de escravos, que alguns analistas chamam de o “holocausto africano”?

Wejryd: Mencionei-o no sermão do domingo, sobre a base que é preciso aprender dos erros do passado. Os países de Europa ganharam muito dinheiro com o comércio de escravos. A sociedade precisa ter consciência desse passado.

Noko: As igrejas luteranas não têm uma tradição muito forte com a escravatura. Mas nosso papel deve ser o da denúncia e do anúncio: “Nunca mais para que essas coisas se repitam”. Vemos que nos Estados Unidos há uma diferença entre os afro-americanos descendentes dos escravos e os outros americanos, que tiveram um outro tipo de início na América.

Pergunta: Como será a FLM em 60 anos?

Noko: Creio que nenhum de nós vai estar aqui a 60 anos. Mas posso falar dos últimos 60 anos. Lund converteu-se num lugar histórico para a FLM. Encontramos nosso posto no contexto mundial: a nós corresponde ser ecumênicos. Temos que apoiar a busca da unidade cristã. E creio que no futuro haverá bem mais sinais de unidade do que agora. Haverá novas famílias de igreja que se complementarão.

Wejryd: Eu tampouco estarei presente em 60 anos. Mas me imagino que seremos uma igreja ainda mas presente e audível na proclamação de princípios. Lutero esperava produzir modificações na igreja com a apresentação de seus princípios. E na proclamação dos princípios aprendemos da doutrina cristã, redescoberta por Lutero, que o cristão sempre tem que interpretar o mandamento do amor, continuamente. O amor de Deus é básico para todos porque a salvação se baseia no amor de Deus.


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