02 outubro, 2008

Alguns apontamentos sobre o desafio de ser Cristão no nosso tempo (Pastor Ronan Boechat de Amorim)









I – INTRODUÇÃO
Como ser autenticamente cristão e uma Igreja autêntica segundo o coração de Deus? Não há uma receita pronta que possa ser aplicada automática ou magicamente pela Igreja. Infelizmente ainda não acordamos para os perigos, desafios e oportunidades da modernidade. Por isso, o que apresentamos a seguir são sugestões para um início de conversa, de oração, de iluminação de Deus a nós.

Temos que olhar para o passado, particularmente para o tempo de Jesus e os tempos apostólicos, e aprender muito com as experiências daqueles cristãos e a perseverança deles em tempos de adversidade. Também não era fácil ser um discípulo de Jesus naquela época, pois além da corrupção religiosa que transformou o templo em covil de ladrões (Lc 19:45-46) e dos sacerdotes que apascentavam a si mesmos (Mt 9:36, Lc 10:30-31, Jo 10:11-13), havia ainda a perseguição, primeiro pelos fariseus (Lc 11:53-54, At 8:1-3; At 9:1-2), depois pelos romanos (2Ts 4:4-5; Ap 2:10). Era evidente também a desconfiança: pode vir alguma coisa boa de Nazaré? (Jo 1:46).


II – TAREFA PARA O GRUPO
1 - Que “estratégia” Jesus utilizou para reunir discípulos e transformar a sua pregação num dos maiores movimentos do mundo em todos os tempos?

2 – O que nos fez decidir por seguirmos a Cristo, tornando-nos cristãos?


III – Pensando algumas pistas.
Como ser cristão num mundo com tanta diversidade religiosa? Como estar no mundo sem ser do mundo e sem nos transformarmos numa bolha no mundo? Como ser uma Igreja atrativa para o homem e a mulher modernos sem aceitar o equívoco de que, mesmo na Igreja, “o cliente tem sempre razão”? Não é uma resposta fácil nem pequena. Qualquer coisa que dissermos nessa lição será superficial e incompleta. Mas não podemos fugir dessa tarefa.

Na tarefa anterior, as respostas certamente acabaram se resumindo numa única palavra: Amor. Seja porque sentimos o grande amor de Deus, seja porque sentimos o amor das pessoas da Igreja. Ninguém aceita a salvação de Jesus e se torna parte da Igreja por causa da arquitetura do templo ou da doutrina. Aceitamos a Jesus por amor e nos tornamos Igreja por amor, porque fomos amados e porque nos sentimos desafiados a amar.

Mas quais são os nossos desafios hoje?
1 – RECUPERAR E ASSUMIR NOSSA IDENTIDADE DE POVO DE DEUS – Precisamos buscar discernimento, consolo, exortação e correção na Palavra de Deus. Afinal, ela é a Palavra viva de Deus, luz para nossos pés e olhos, lâmpada para nossos caminhos e nossa ação. Precisamos à luz da Palavra e da oração conhecer e experimentar mais o amor e a vontade do Pai. É isso que nos dá a identidade de povo de Deus, de cristãos, de filhos e filhas de Deus. Devemos desejar sinceramente, buscar urgentemente e permitir irrestritamente que a Palavra e o Espírito Santo moldem nossos valores, caráter, vontade, coração (afetos) e consciência.

Embora as iniciativas individuais não resolvam todos os problemas, elas são muito importantes, sobretudo se animam e motivam o grupo. Por isso, se necessário, seja o primeiro a se comprometer e se oferecer a Deus, começando essa busca com sua própria vida e serviços. Quer, por exemplo, uma Igreja mais acolhedora? Comece por você mesmo essa transformação e passe a acolher melhor as pessoas.

2 - SER UMA IGREJA MISSIONÁRIA – Num mundo plural ouvimos a voz de Deus, tivemos nossa experiência religiosa de conversão e por livre e espontânea vontade aceitamos a Jesus como nosso Senhor e Salvador. Mesmo em meio a tantas vozes, a tantas opções religiosas e tanta fragmentação da própria Igreja, a graça de Deus nos alcançou através de alguém que aceitou repartir da sua fé. Precisamos recuperar a alegria de viver e de compartilhar nossa fé. Precisamos acreditar que apesar das ambigüidades, a Igreja é um projeto de Deus.
É importante acreditar que a graça de Deus atua mesmo num mundo conturbado. Que é nossa tarefa testemunhar o Evangelho e é um direito de todo ser humano aceitar ou rejeitar o amor de Deus (livre arbítrio). Somos chamados a semear a semente, quantas vezes forem necessárias e cultivá-la (discipulado), mas a germinação (conversão) e o crescimento (santificação) da semente não são nossas responsabilidades.

3 – SER UMA IGREJA ACOLHEDORA E SOLIDÁRIA – Num mundo em que as pessoas são reduzidas a uma imagem, um número ou um consumidor, a Igreja tem de ser um lugar acolhedor. Num mundo em que tantos, sobretudo os mais simples e os mais pobres, são praticamente “invisíveis” enquanto pessoas, a Igreja tem de ser um lugar da prática do amor e de integração. Assim, as pessoas se sentirão promovidas a companheiras, mais humanas, mais personalizadas e livres. A Igreja é ainda lugar de educar e capacitar pessoas a serem solidárias com quem sofre. Lugar em que o solitário encontra uma família. Em que o aflito encontra consolo, em que o abatido encontra o apoio, conhecem seu nome, sua história, seus sonhos. Mais do que ativismo e informações, a Igreja deve ser o lugar onde as pessoas possam conversar e conviver, tanto com o Pai como com os irmãos e irmãs.

No livro História da Cidadania, publicado em 2003 pela Editora Contexto, o escritor Eduardo Hoornaert, no capítulo “As comunidades cristãs dos primeiros séculos”, afirma que o segredo do sucesso e do crescimento espantoso do cristianismo do I ao III século d.C. é que a Igreja havia se tornado a “paróquia”, cujo significado é “a casa do pobre”. Jesus priorizou sua mensagem e a Igreja abriu seu coração e suas portas aos pobres. Todo mundo que era rejeitado por Roma, pelos reinos desse mundo e pelas demais religiões, era convidado, acolhido, cuidado e tratado com a dignidade de um amigo e de alguém querido. As pessoas, sobretudo as mulheres, as crianças, os gentios, os doentes e os escravos, não eram tratados pelo status social desigual que tinham, mas como filhos e filhas de Deus. Diferentes uns dos outros com certeza, mas iguais em dignidade. Os pobres e indesejados eram bem-vindos aos cultos, não sendo tratados apenas nos fundos da Igreja por alguém da ação social como passou a acontecer a partir da aliança da Igreja com o Imperador Constantino.

4 – TER UM ENCONTRO PESSOAL COM DEUS – A fé nasce de um encontro pessoal com Deus. O Rev. John Wesley durante uma experiência religiosa disse: “Senti meu coração arder. Senti que meus pecados eram perdoados. Senti que confiava em Deus”.

A Igreja deve ser naturalmente o melhor lugar do mundo para que as pessoas tenham uma experiência pessoal de fé com o Deus vivo. A Igreja deve ser a comunidade e a congregação dos homens e mulheres que experimentaram e continuam a experimentar a presença amorosa e salvadora de Deus. Conhecer Deus não é apenas ter informações sobre Ele, mas é encontrá-lo numa experiência pessoal e manter a comunhão em Igreja.

Precisamos encontrar ou reencontrar alegria, força, sabedoria, descanso, gozo, sentido e direção em Deus. Precisamos fugir da tentação da auto-suficiência, de acharmos que temos todas as respostas e soluções para tudo. Não, não temos. Precisamos recuperar o prazer e a prática da oração, do diálogo verdadeiro e pessoal com Deus. Deus é o Senhor da Igreja, devemos confiar que nada escapa ao controle e cuidado de sua mão. Dependência de Deus não é nos tornar passivos e apáticos, mas agirmos sob a orientação e o poder de Deus.


5 – TER JESUS CRISTO COMO NOSSO PADRÃO E ÚNICO SENHOR – Precisamos agir de acordo com a nossa consciência transformada, iluminada e edificada pela Palavra e pelo Espírito de Deus. O que ilumina e guia a nossa vida, valores e comportamento não pode ser o pecado, o bom senso, a opinião pública, o exemplo da maioria e nem aqueles que são mau testemunho do Evangelho. Jesus (sua vida de amor, oração, sabedoria, autoridade, liberdade frente ao mundo e à própria religião de seu tempo) deve ser o nosso padrão. Devemos ser imitadores de Jesus (Gl: ). E de antemão podemos afirmar que isso implica, entre outras coisas, nunca abrir mão da nossa dependência e comunhão íntima com Deus, nunca abrir mão da verdade (com amor!), da justiça (com misericórdia!), da ética (com santidade!), da valorização da vida, da doutrina dos apóstolos e do compromisso com o Reino de Deus. As prioridades de Jesus devem ser também nossas prioridades, pois somos discípulos e Ele é o nosso Senhor, o único Senhor. Ninguém pode servir a dois senhores.

6 – SER A IGREJA DO REINO DE DEUS E NÃO MAIS A IGREJA OFICIAL DO SINÉDRIO OU DO IMPÉRIO – Precisamos entender e aprender de uma vez por todas que não somos mais a religião oficial do Império e de nenhum outro reino humano ou ideologias. Devemos resgatar em nós o espírito da Igreja de Atos dos Apóstolos (“Igreja Primitiva), que se reconhecia como discípula do Salvador Jesus, que morreu na cruz entre dois ladrões, cujo ministério começou na periferia (Galiléia) de Jerusalém e cujas prioridades eram os pequeninos, os doentes, os pecadores e os pobres, e não os sãos, os bons, os “bam-bam-bans” e os poderosos.

Jesus nasceu num estábulo e não num palácio. Seus primeiros discípulos, por escolha do próprio Jesus, eram pescadores pobres e praticamente analfabetos e não os sacerdotes, nem os poderosos do Sinédrio judeu, nem os senadores, os intelectuais, os nobres e os militares de alta patente do Império Romano. Jesus deu orientações claras sobre suas prioridades e recusou de aceitar que a conquista do poder temporal fosse uma estratégia ou um instrumento de construção do Reino de Deus. Ele disse “o meu Reino não é deste mundo”. Ou seja, não se identifica, não se confunde com nada neste mundo. Ela não se confunde com o Estado, com um partido político, com um hospital, com um clube... A política pode ser um excelente ministério para o cristão, mas há igrejas e cristãos muito preocupados em conquistar o poder temporal dos modernos Sinédrios e Senados. O passado (sobretudo a Idade Média) nos ensina que essa não é a vocação da Igreja, que teocracias não funcionam. O poder para o avanço do Reino em nosso mundo não está em homens poderosos ou messiânicos e nem em qualquer estrutura de poder humano. O poder do cristão, da Igreja e do Reino está unicamente em Deus. O cristão é chamado a ser testemunha e profeta, e não o rei.

7 – TER AUTO-CRÍTICA E APRENDER COM OS TESTEMUNHOS DO PASSADO – Precisamos ter discernimento, auto-crítica e iluminação da Palavra de Deus. Devemos aprender com a história da Igreja. Com o exemplo positivo dos apóstolos dos tempos bíblicos, dos pais da Igreja, dos reformadores... E com os exemplos negativos também... e ter uma prática missionária e pastoral hoje que seja expressão de um “mea culpa” por diversas vezes ao longo da história humana termos permitido que a Igreja de Jesus se prestasse a ser um instrumento atroz de legitimação de políticas nefastas e ordens sociais iníquas, como se Deus colocasse sua assinatura (chancela) nelas. A longa e cruel perseguição aos judeus ao longo dos séculos, as cruzadas militares, as conquistas militares e colonização e até extermínio de povos e países pobres, a escravidão e o lucro com o tráfico de pessoas (sobretudo dos negros africanos), o feudalismo, a marginalização e opressão da mulher, a opulência e a cobiça das riquezas deste mundo e do poder temporal, a tortura e os assassinatos nas fogueiras da “santa inquisição”, a segregação racial e apartheid, o nazismo, o comunismo, o fascismo, o capitalismo selvagem, a censura à ciência e à pesquisa e a cassação das liberdades individuais e religiosa são exemplos (de católicos, ortodoxos, protestantes e os modernos evangélicos!) que maculam enormemente a história da Igreja. Tudo isso imensamente agravado pela primazia por séculos e séculos que a Igreja teve junto a monarquias, estados, povos e nações. Ela tinha o poder temporal e o usou vergonhosamente contra o Reino.

Mas vale a pena fazer a ressalva de que generalizar o mal e o abuso cometido pela Igreja é injusto e um equívoco. A despeito de muitos setores, grupos, ordem e denominações da Igreja terem aderido ou silenciado (se omitido) diante de abusos e atrocidades, Deus em sua rica providência levantou homens e mulheres que não se curvaram aos ídolos deste mundo, ao deslumbramento das riquezas e do poder temporal, aos desvios da própria Igreja. Mas amaram mais a Deus que o mundo e denunciaram os abusos, pecados e atrocidades da Igreja e, com fome e sede de justiça, anunciaram o Evangelho do Reino de Deus.

II – QUESTÔES FINAIS
1 - Como ser cristão num mundo marcado pela diversidade religiosa e pela modernidade? Como estar no mundo sem ser do mundo? Como ser um cristão e uma igreja cristã modernos sem cairmos nas tentações e armadilhas da modernidade?

2 - Como é possível corrigir o moderno processo de deterioração do Evangelho de fé cômoda e materialista, cristianismo sem cruz e sem necessidade de igreja, avivamento sem santidade, louvor sem serviço missionário, redução da vida cristã ao que eu sinto e ao que me emociona, conhecimento bíblico superficial e limitado a uns 20 ou 30 versículos?

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