25 julho, 2006

Por que e para que nos organizar?

Por: Anivaldo Padilha (*)

Este texto é resultado de uma troca de e-mails com o Rev. Ronan Boechat, da Igreja de Vila Isabel, no rio de Janeiro. Decidi editá-lo pois me pareceu importante compartilhá-lo com todos e todas vocês.

O que apresento a seguir é mais uma tentativa de contribuir para as nossas discussões pós-concílio. São idéias iniciais que obviamente não esgotam o tema. Ao contrário, precisam ser ampliadas, discutidas e aprofundadas, e é por isso que as envio a vocês.

1. Sabemos que a decisão do concílio teve a questão ecumênica somente como pano de fundo e, para alguns, somente como pretexto para a conquista de poder. Se nào houvesse a questão ecumênica, outras questões seria inventadas ou elevadas ao mesmo nívelde importância.

2. Por isso sabemos também que há vários outros pontos contenciosos na igreja que precisam ser discutidos.

3. Acho importante que se continuem as reações como forma de pressão. No entanto, acho que isso não produzirá quase nenhum resultado no curto prazo. Acho difícil, ou mesmo impossível, que o concílio reverta a decisão. E mesmo que fosse revertida, eu pessoalmente não me sentiria satisfeito, pois não creio que seria benéfico para ninguém conviver com uma situação marcada por sentimentos de "perdedores" e de "vencedores".

4. Creio que temos que desenvolver um trabalho que contribua para a superação da lógica de identificar inimigos naqueles que pensam diferente de nós. Meu receio é que, na ânsia de reagirmos, acabemos por usar os mesmos métodos de intolerância que caracterizou a decisão do concílio. Sei que, pelos textos e e-mails que tenho lido, há um consenso sobre isso.

5. Qualquer saída no curto prazo, ou seja, ainda neste concílio, dependerá da atitude do atual Colégio Episcopal. Não sei se ele está preparado para isso ou mesmo que se sinta com autoridade suficiente para encaminhar saídas conciliatórias.

6. Se estou correto, caberia aos pastores e lideranças leigas a construção de alternativas de curto prazo. Não sei se haverá tempo, pois isso necessitaria de uma articulação rápida e organizada e o tempo é curto.

7. Não estou jogando a toalha, mas acredito mais numa articulação de longo prazo, com a criação de espaços para encontros de leigos e pastores interessados e comprometidos não somente com o ecumenismo, mas também com o resgate de pontos essenciais da tradição metodista. Esses encontros poderiam focalizar temas importantes da atualidade da nossa igreja, tais como espiritualidade, liturgia, missão, formação (principalmente o estudo da Bíblia), o papel de jovens, homens e mulheres na igreja, o preconceito racial e outros preconceitos presentes na igreja etc, e desenvolver alternativas de participação eclesial para todos e todas que vivem o que eu chamaria de "diáspora" metodista, ou seja, membros clérigos e leigos que se sentem "exilados" dentro da própria igreja. Creio que dessa forma teremos condições de construir pontes com a maioria dos metodistas insatisfeitos com o estado atual da igreja e que foram manipulados em relação ao ecumenismo e podem continuar a ser manipulados em torno de outras questões.

8. Na minha opinião, tal articulação só teria sucesso se tivesse por objetivos centrais, entre outros, a busca de crescimento espiritual e de fortalecimento do nosso testemunho na sociedade brasileira e também o de identificar qual deve ser nossa contribuição específica ao movimento ecumênico. Alguma semelhança com o movimento iniciado por Wesley? Sim, muita, só que em diálogo com a realidade social, econômica, cultural e religiosa do Brasil.

9. Nessa articulação, teríamos que deixar de lado qualquer pretensão de construção ou de conquista de poder na igreja. Não sou contra a ocupação ou o exercício de qualquer função formal de liderança na igreja, desde que o poder seja compreendido como serviço. O que quero ressaltar é que, quando um movimento coloca a conquista do poder como um de seus objetivos, ele passar a se guiar por essa lógica e acaba por usar os métodos mais condenáveis. Infelizmente, a História da Igreja, a nossa inclusive, está plena de exemplos desse tipo. Eu disse a um irmão na semana passada que não acho que o poder corrompa. As pessoas que lutam pelo poder é que se revelam quando o conquistam. Se quisermos saber como um líder ou um movimento será quando chagar ao poder, é só observar seus métodos.

10. Tal movimento teria que estar aberto para reconhecer que a igreja, tal como o cristianismo primitivo (antes do domínio romano sobre ele), é plural. Portanto, teria que estar aberto também para dialogar com outros setores da igreja que, apesar de ter posições divergentes em algumas questões, estejam também dispostos ao diálogo.

11. Agindo assim, é possível que, no futuro, nossa igreja possa sacudir o pó do conservadorismo e da intolerância como aconteceu, não totalmente nem de forma definitiva, em outras épocas. Não podemos é ter a ilusão de que algum dia teremos a igreja ideal, pois as instituições nunca serão ideais e a igreja será sempre santa e pecadora, como dizia Lutero, não exatamente com estas palavras que podem ser ditas em público.

O importante, para mim, é que possamos chegar a uma agenda comum que possa incluir todos e todas que hoje se sentem ofendidos, insatisfeitos, decepcionados e desanimados. Não podemos permitir que desta vez ocorra o que aconteceu na 'decada de 60 quando centenas de lideranças promissoras não viram outra alternativa a não ser deixar a igreja. Até hoje pagamos o preço daquele tipo de intolerância.

Apesar de tudo, a decisão do concílio teve um efeito positivo, pelo menos para mim. Fez com que muitos que estavam distantes uns dos outros (por razões de distâncias geográficas, principalmente) se reaproximassem. E isso é muito bom, pois me dá força e disposição.

Tem sido muito bom manter este diálogo com vocês.

Um grande abraço fraterno

Anivaldo Padilha
Leigo, 3ª Região
apadilha@distopia.com