19 dezembro, 2007

"Um menino nasceu. O mundo tornou a começar" *

De Luiz Carlos Ramos


Foi numa noite de lua, nas veredas do grande sertão... Riobaldo atravessava os ermos da caatinga quando ouviu os gemidos de parturiente que vinham de um misérrimo casebre, enterrado na solidão. A mulher estava só, com suas dores e seu ventre inchado.
Não obstante suas andanças o tivessem preparado mais para agente funerário que para obstetra, naquela noite o jagunço não teve escolha, a força irresistível da vida o convertera em parteira. Foi assim que, pelas mãos de um jagunço, no fundo do sertão, mais uma criança “saltou pra dentro da vida”**.

A essa altura da narrativa, ao som do choro do recém-nascido, Guimarães Rosa colocou as seguintes palavras na boca do extasiado Riobaldo: “Um menino nasceu. O mundo tornou a começar. E saí para as luas...” O milagre do recomeço do mundo acontece a cada parto. Sim, o mundo recomeça todas as vezes que, vencendo tantas forças contrárias, a vida sobrevive.
Nas veredas dos nossos urbanos, mas não menos perigosos, sertões, tornamo-nos jagunços cada vez mais cruéis, rudes e selvagens. Extorquimo-nos mutuamente, violentamo-nos, mutilamo-nos, agredimo-nos, ignoramo-nos, executamo-nos com fúria tal que deixaria perplexo o mais impiedoso cangaceiro.

Em noites enluaradas, como a que banhou aquele casebre, tudo pode acontecer. Nossas crendices nos dizem que, em tais ocasiões, há homens que viram feras terríveis, e que vagam pela noite destilando horror e morte. Entretanto, nesta história, o luar do sertão transformou Riobaldo de uma maneira totalmente inusitada: fez daquele ser, embrutecido pela crueza do cangaço, um anfitrião terno, pronto para acolher nos braços a reinvenção do mundo.

Penso que o Natal é isso: Deixarmos que as estrelas e a lua nos transubstanciem em anfitriões da vida. Anoitecemos brutas feras, para amanhecermos parteiras da humanidade. Façamos desta uma noite feliz, pois nasceu mais uma criança e o mundo tornou a começar.

Feliz Natal!



* Exclamação de Riobaldo, personagem de João Guimarães Rosa, no romance Grande Sertão Veredas.
** Esta expressão é de João Cabral de Melo Neto, em seu impagável Morte e Vida Severina.

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