30 janeiro, 2009

Criados para gozar a vida e vocacionados para uma vida de gozo (Pr. Ronan Boechat de Amorim)




(Texto atualizado em 30 de janeiro de 2009, às 20:37h)

Retorno à ativa como pastor da Igreja Metodista de Vila Isabel depois de 20 calmos e abençoados dias de férias. Diminuir o ritmo de vida, mudar rotinas, colocar a vida pessoal como uma real prioridade, são algumas das bênçãos de gozar férias. Parar de vez em quando (seja por férias, feriado ou final de semana), é tão bom que o nosso próprio Deus depois de ter trabalhado 6 dias, tirou o sétimo dia para descansar. Para contemplar e gozar a obra de suas mãos. Descansar um dia a cada seis dias trabalhados também é mandamento do Senhor (Ex 34:21) aos que sofreram escravidão sem dia de descanso e a todos os demais. O sétimo dia é dia de deixar o trabalho regular, e cuidar do gozo da individualidade, do descanso, da vida familiar, da vida comunitária, da relação com Deus.

Embora a palavra gozo tenha passado nos últimos tempos por um triste reducionismo de sentido, sendo aplicada majoritariamente na questão sexual, como sinônimo para orgasmo, devemos recuperar o seu sentido mais amplo e reaprender o gozo em todos os sentidos etimológicos possíveis.

O dicionário Aurélio diz que gozar, entre outras coisas, é “aproveitar, fruir, desfrutar, desfruir; sentir prazer íntimo, deliciar-se com; sentir prazer ou satisfação; experimentar prazer; viver agradavelmente, divertir-se; deliciar-se com”.

A palavra gozo está na Bíblia e em alguns momentos é um privilégio que Deus nos dá e é também uma espécie de orientação, ordem, mandamento divino.

O orgasmo também é uma bênção divina. Deus nos criou homem e mulher, sexuados, vocacionados para a vida sexual e capacitados para o orgasmo. Sexo, prazer sexual, orgasmo, etc, desculpem-me a franqueza, mas são coisas (dons!) de Deus e não do pecado, da carne (natureza humana decaída), do diabo. Deus nos criou sexuados e para ser “uma só carne” desde antes do pecado, da serpente, das conseqüências pelo pecado, da expulsão do Paraíso. O pecado não foi a descoberta e a prática do sexo, mas a desobediência, a cobiça, a traição a Deus. Até porque havia a prática do sexo e o gozo sexual no Paraíso: "E Deus os abençoou e disse ao homem e à mulher: Sede fecundos, multiplicai-vos" (Gn 128). E é importante deixar claro aqui que o sexo não era e não é apenas para a reprodução (ter filhos), mas também para a mútua satisfação sexual, para o prazer. "Não vos priveis um ao outro" (1Co 7:5).

Provérbios 7:18 é um convite ao homem e à mulher a se embriagarem “com as delícias do amor, até pela manhã; gozemos amores”. Ou seja: “Venha, vamos amar a noite toda. Passaremos momentos felizes nos braços um do outro”. As advertências (condenações) bíblicas e divinas nesse capítulo 7 de Provérbios não são contra o gozo do amor (Gn 2:24; Ef 5:31), mas contra o adultério (Ex 20:14; 1Co 6:9-10; 1Co 6:16). Se esse capítulo 7 descrevesse o amor entre o marido e a mulher, não enfocaria o gozo como pecado, mas bem-aventurança. Seria uma síntese do amor inspirado e aprovado por Deus entre o esposo e a esposa do livro bíblico do Cântico dos Cânticos (Hb 13:4).

Nosso Deus nos deu também a capacidade e o privilégio de gozar a vida. É dádiva de Deus o gozo da vida (Eclesiastes 9:9), o gozo do bem (Eclesiastes 7:14), o gozo da felicidade (Eclesiastes 2:1), o gozo do trabalho (Eclesiastes 5:19), o gozo da sexualidade, o gozo dos relacionamentos, o gozo dos sentidos, o gozo da espiritualidade, da fé, da presença de Deus (Mateus 25:21). O próprio Senhor Jesus disse em João 10:10 que veio para que tivéssemos vida e vida com abundância, “mas o diabo veio para matar, roubar e destruir”. E eu acrescentaria: para confundir e deturpar.

Não é porque pessoas reduzem o gozo unicamente ao ato sexual (orgasmo) que nós cristãos devemos aceitar o tal reducionismo, sentir vergonha de usar a palavra, evitando-a. Se o mundo reduz, nós ampliamos. Se o mundo deturpa, nós corrigimos. Se o mundo faz errado, nós insistimos, perseveramos, afirmando a nossa fé, alargando o que o mundo insiste em estreitar.

Eu não poderia deixar de citar alguns versos de alguns dos hinos do nosso Hinário Evangélico sobre esse tema:

HE 20 - Gozam paz e salvação todos os que crêem.
HE 54 - Que dia de glória e gozo também!
HE 69 - Mais paz e ventura no Céu gozaremos
HE 81 - Cristo Jesus, conduze-me contigo, para onde eu goze teu eterno amor.
HE 98 - Viver quero eu contigo, no gozo ou na aflição.
HE 105 - Minha alma deixa a terra e vai gozar no céu.
HE 125 - Dá-nos sempre o gozo de teu nome honrar!
HE 140 - Na leitura desta Bíblia dá-nos gozo no Senhor.
HE 140 - E gozemos alegria e vida e luz.
HE 183 - Tudo a ti, Jesus, consagro, quanto gozo, meu Senhor!
HE 190 - Gozando mesmo aqui do alento e da doçura, que achamos sempre em ti.
He 198 - Meu pobre coração Almeja, ó Salvador, em doce comunhão gozar o teu amor.
HE 271 - Mais gozo em servir-te, mais inspiração.
HE 282 - Eu gozo a graça do reino da luz
HE 296 - Mais e mais perto seguindo o Mestre, possuo o gozo da salvação!
HE 301 - No gozo puro e santo do seu imenso amor,
HE 322 - O gozo deste coração eu mais e mais publicarei.

Como vemos, Sarah Poulton Kalley, consagrada autora de muitas das letras dos hinos de nosso Hinário Evangélico no século XIX, testifica que não fomos criados para uma vida sem gozo, uma fé sem gozo e uma espiritualidade sem gozo. Não devemos ter medo do prazer, da alegria. Nosso Deus é Deus do prazer e da alegria. Viu Deus que tudo quanto fizera era muito bom (Gn 1:31). Vida cristã sem gozo, de fato não é vida cristã, é apenas ritualismo. Vida conjugal e familiar sem gozo, é apenas vida mecânica, medíocre, superficial. Não é vida, mas estrutura, instituição, etc, que sufocam, esgotam ou simplesmente não se sustentam.

É verdade que a vida cristã é bem mais do que gozo; é também compromisso e luta. Mas também é verdade que a vida cristã não é apenas compromisso e luta; é também gozo, alegria, conforto, superação, vitória. O apóstolo Pedro nos exorta a não estranhar as lutas e provações: “pelo contrário, alegrai-vos na medida em que sois co-participantes dos sofrimentos de Cristo, para que também, na revelação de sua glória, vos alegreis exultando” (1 Pedro 4:13). Ou seja, a finalidade de nossa vida, de nossa fé em Cristo não é o sofrimento, mas o gozo eterno.

Mas o gozo não pode ser o gozo hedonista, egoista, irresponsável, descompromissado com o Evangelho de Jesus e as lutas de nosso povo por paz, pão, terra, justiça e cidadania. Só pessoas doentes conseguem ser felizes sozinhas ou com o sofrimento do outro, pois só se importam com o próprio prazer, sem se importar em construir comunhão. É o que acontece com aquele tipo de gente mesquinha que faz sexo no outro, usando o outro para aliviar suas necessidades sexuais, mas sem construir parcerias, relacionamento, afeto, comunhão. Isso acontece também com quem usa o outro, fazendo do outro fonte de algum tipo de lucro, sem se importar com o outro, sem amar, sem cuidar. Isso acontece ainda pra aqueles que querem as bênçãos de Deus mas não querem o Cristo do Evangelho, para quem quer um cristianismo sem a cruz, sem a negação de si mesmo, sem o cuidado mútuo, sem interação.

Gozo sem compromisso é alienação, carnalidade, falta de visão e de memória. Não é a festa pelo resultado do trabalho e das lutas, dos processos e das experiências de quem deseja e faz parte dos que constróem justiça e paz, cidadania, o Reino de Deus na terra. Não é a festa da memória, do amor e da vida, mas a festa da falta de memória, do carnaval, daqueles dias em que eu esqueço de quem sou e brinco de ser qualquer coisa que eu queira ser.

Eu e meu amigo Roberto Mendes escrevemos uma canção chamada "Formigarra", mistura poética da formiga que trabalha arduamente com a cigarra que canta até morrer. Em dado momento dizemos: "Eu quero ser uma Formigarra, uma mistura de formiga com cigarra, pra trabalhar pro meu Senhor, louvando o nome de Jesus, meu Salvador". Pensamos, como na fábula do La Fontaine, que a cigarra não aceitaria o mecanicismo e a vida sem gozo e que a formiga não deixaria que a vida fosse reduzida apenas ao ócio, entendendo que trabalho, responsabilidade, consciência da realidade, entre outras coisas, também fazem parte da vida abundante que Deus quer que todos tenham. Porque o gozo sem o chão da realidaderes e sem a responsabilidade com a alteridade não é gozo, é apenas gozação (troça, pândeda, escárnio, peraltice, malandragem, libertinagem), de quem não leva a vida a sério, de quem não leva o outro a sério, de quem é apenas um bobo-babão. Daí recuperar o lugar e o sentido do gozo, do gozar a vida. Gozar a vida como quem "leva a vida na flauta" e mostra que seu canto é sério. "Que aqueles que semeiam chorando façam a colheita com alegria! Aqueles que saíram chorando, levando a semente para semear, voltarão cantando, cheios de alegria, trazendo nos braços os feixes da colheita", diz o Salmo 126:5-6.

Busquemos, portanto, em Cristo e no Seu Evangelho e em relações justas e solidárias, uma vida gozoza. Gozo na adoração, na oração, no descanso, no trabalho, na poesia, na música, nos órgãos do sentido, nos relacionamentos inter-pessoais, na relação pessoal com Deus e em nosso compromisso e até nas lutas pela Causa do Evangelho. Em tudo e apesar de tudo, gozar a presença de Deus, gozar a graça salvadora de Deus.

“E o Deus da esperança vos encha de todo o gozo e paz no vosso crer, para que sejais ricos de esperança no poder do Espírito Santo” (Romanos 15:13)

Coisa maravilhosa é essa, alegrar-se no Senhor! (Sl 97:12; Fp 4:4) e gozar a vida (Ec 9:9) ao lado do cônjuge, da família (Sl 68:6; Sl 113:9), dos amigos (Pv 27:10; Ec 4:9-12) e da comunidade da fé (Hb 10:25). Porque quando nos reunimos, Jesus está conosco (Mt 18:20), ensinando-nos a superar a solidão (Gn 3:18) e a gozar a vida no que ela tem de melhor: a experiência solidária,
criativa,
inventiva,
inovadora,
apaixonante,
vivificante,
prazerosa,
embelezadora,
afável,
fraterna,
libertadora,
desconcertante,
des-domesticadora,
transcendente,
ecológica,
anagógica,
bíblica,
divina,
eterna,
quotidiana,
histórica,
lógica,
ética,
estética,
significante,
humana,
humanizadora,
corpórea
e maravilhosa do amor (1Co 13).

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