15 outubro, 2006

Dos pés à cabeça

Por Fábio Alcantâra

O Distrito Federal deveria iniciar uma campanha turística destacando suas belas paisagens e fazer com que o povo brasileiro se esqueça dos políticos e lembrem-se de que nem só de seres exóticos vive a capital brasileira. Quando a TV menciona a cidade, logo me lembro daquela casta superior que vive às nossas custas, com raríssimas exceções. Aquele exagero de ajuda de custos me deixa nervoso. Extra para comprar ternos, para funcionários (mais de 30!) por parlamentar, viagens, etc... Coisa de sultão árabe, só que não tem poços, mas im-postos!

Infelizmente no Brasil a corrupção é generalizada. Este ano, quando estive na capital paulista, tomei o ônibus com minha família e o motorista mandou entrar pela porta traseira. Quando paguei as passagens, o homem não virou a catraca. Isto se repetiu por umas cinco vezes só onde pude contar até me dispersar pela via Dutra. Fiquei chateado com a situação: ele que está acostumado à corrupção, eu que me neguei a fazer o certo por medo de represália, e assim alimentamos a cultura do “levar a melhor”.

Assim nos concentramos na esfera mais alta da sociedade política, como seres políticos. Eps! Mas os políticos não são representantes que elegemos, portanto um espelho legítimo da grande multidão? Parece que todos nós temos a herança maldita da corrupção ativa ou passiva. Ninguém se salva. Aliás, “se salvar” é o que todos querem, por isso o Brasil não vai pra frente. Os pobres estão vendendo seu voto pré-pago porque querem se salvar já! Votar em alguém que vai resolver os atuais problemas daqui a 10 anos, nem pensar. Todos queremos garantir nosso conforto hoje. Não importa se vão haver árvores ou rios para os netos. Eles que se virem. Não é isto que está embutido no nosso cotidiano?

O Lula poderá ser reeleito, mas não porque lhe conferimos isto como autoridade legítima, mas por indiferença geral da sociedade. Mas quem era o melhor? Dentre os menos piores o discurso mais correto que encontramos na campanha eleitoral do primeiro turno foi a do Cristovam Buarque. Seu jargão que torrou a paciência com o tema da Educação é uma coisa para quem tem visão de sociedade e solidariedade, que luta por uma causa maior. Educação não sentar numa escola e comer merenda, mas um fato fundante para mudar nossa sociedade. Eis aí o verdadeiro investimento para tirar o nosso povo da ignorância. Mas o pobre homem veio meio como uma voz que clama no deserto, pois quem daria ouvidos a algo tão utópico e a longo prazo quanto o desejo pelo céu?

Como ter esperança numa sociedade justa e solidária? Em relação à política, só tirando o salário de todos eles e fazendo-os trabalhar voluntariamente. Aí apareceriam aqueles e aquelas que realmente tem uma vocação sacerdotal para o ofício público. Veríamos então o fim da vagabundagem geral e aqueles que realmente são o trigo no meio da plantação permaneceriam. O joio assumiria de vez sua parte bandida.

Quanto a nós, sonhadores de uma sociedade habitável, só vemos uma saída: cada um fazendo sua parte no que lhe convém. Na política local, na boa vizinhança, no jogar o lixo no lixo, no prestar solidariedade a quantos pudermos, enfim, fazendo a pequena parte que nos cabe e passar isso adiante. E comparecermos às urnas para darmos um susto nos pilantras, como aconteceu agora. Os antigos sempre diziam que se cada um varrer sua calçada, a rua toda ficará limpa. Se olharmos para o macro, ficamos profundamente desanimados e impotentes; porém se nos fixar no micro, como uma célula na qual fazemos parte e passarmos adiante, creio que será possível permanecer animados na luta por uma sociedade melhor. Olhar para o Brasil é desanimador. Mas quanto olho para o meu bairro, minha cidade, algo pode melhorar.

A Bíblia já diagnosticou a corrupção nata do ser humano: Desde a planta do pé até a cabeça não há nele coisa sã, ... Isaías 1.6. Então já é hora de cada um fazer a sua parte e lutar pela sociedade próxima de nós e iniciar um movimento ético a partir de nós mesmos, não delegando isto aos outros. Mãos à obra.
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Fábio Alcântara é Pastor da
Igreja Metodista Para comentar ou ler outros artigos acesse: http://br.groups.yahoo.com/group/LittleThinks/