20 dezembro, 2007

UM EM CRISTO - Parte final

(Rev. John Robert Nelson)

Paulo estava convencido de que havia poder divino operando dentro da comunidade cristã e dentro de cada um de seus membros em particular. Esse poder preserva o homem ou a mulher crente de ceder ao mal em desespero e os capacita a viver juntos em amor. Mesmo que os crentes sejam fracos e pecadores, e lutas se levantem dentro das igrejas locais, ainda assim Cristo permanece como Espírito vivo de amor dentro da comunidade. Sem a presença de Jesus Cristo, tanto o que ensina a vontade de Deus, como o que capacita o povo a obedecê-lo, seria a moral cristã impossível. Sem a presença dEle que ordenou aos discípulos e aos primeiros cristãos: — "Que vos ameis uns aos outros, assim como eu vos amei" (Jo 15.12), essa unidade interna da Igreja é impossível.

Várias imagens são usadas em o Novo Testamento para expressar essa unidade interna. Elas não descrevem estado ideal de paz e harmonia, pelo qual os cristãos devem lutar, mas em vez disso transmitem as boas novas de que Deus em Jesus Cristo atualmente tem feito alguma cousa que os capacita a gozar essa unidade.

Parede é símbolo de divisão. Aquela que aparentemente não pode ser ultrapassada, nem destruída e que separou judeus de gentios (ou simplesmente dos não-judeus). A atitude do judeu ortodoxo em relação a pessoas de outras nações, ou religiões, era tão rigorosamente exclusivista como a do brâmane hindu em referência a um varredor da mais baixa classe. Havia mesmo no pátio do templo de Jerusalém uma parede que impedia a todos os não-judeus de se achegarem ao lugar santo. As pedras dessa parede de separação eram como as numerosas leis religiosas que desfiguravam a pureza pessoal e a perfeição do ritual. Para a mente do judeu, essas leis foram firmemente colocadas por Deus mesmo como pedras e seladas com argamassa. Eles criam que era a vontade de Deus que absolutamente não tivessem contacto algum com o estrangeiro impuro.

Mas, qual foi a assombrosa mensagem cristã ao gentio desprezado e rejeitado? "Portanto, lembrai-vos de que outrora vós... estáveis sem Cristo separados da comunidade de Israel... mas agora em Cristo Jesus, vós, que antes estáveis longe, fostes aproximados pelo sangue de Cristo. Porque ele é a nossa paz, o qual de ambos fez um; e, tendo derrubado a parede da separação que estava no meio, a inimizade... (Ef 2.11-14). E, que foi dito ao judeu exclusivista? Que Cristo realizou a obra de reconciliação, pois "aboliu na sua carne a lei dos mandamentos na forma de ordenança, para que dos dois criasse em si mesmo novo homem, fazendo a paz e reconciliasse ambos em um só corpo com Deus, por intermédio da cruz" (Ef 2.15-16).

Em outras palavras, o testemunho do amor de Deus, em humilhação e morte de seu Filho Jesus Cristo, foi tão poderoso que rachou de alto a abaixo aquela barreira formidável que impedia a comunhão humana. Desse momento em diante o Povo escolhido de Deus já não estava mais circunscrito à nação judaica, mas a esse Povo podiam pertencer todos os homens e mulheres que em qualquer parte aceitassem o Evangelho e confessassem Jesus Cristo como Senhor. Pela morte de Cristo as barreiras de culto, classe, e raças terminaram. Há na comunidade cristã lugar para todos os que têm fé. Paulo declarou: "Dessarte não pode haver judeu nem grego; nem escravo nem liberto; nem homem nem mulher; porque todos vós sois um em Cristo Jesus" (Gl 3.28).

O Novo Testamento muitas vezes declara que a Igreja na qual essa maravilhosa espécie de unidade pessoal é encontrada, é o "corpo de Cristo". Que significa isso? Não é preciso muita imaginação para compreender o significado do corpo como organismo físico em que cada simples órgão, ou parte, é dependente das outras, tanto quanto dependente da vida do corpo todo. A mútua dependência do olho, da mão, ou do pé, é o modelo do auxílio e sustento comum que cada cristão individualmente deve dar ao seu próximo. "De maneira que, se um membro sofre, todos sofrem com ele; e, se um deles é honrado, com ele todos se regozijam" (I Co 12.26). Este quadro pode ser muito simplesmente aplicado às relações pessoais dentro da comunidade cristã. Uma igreja sã, como um corpo são, é aquela na qual não há discórdia.

O ensino de Paulo perde a sua força para nós, contudo, se virmos em I Coríntios 12 mera lição objetiva que poderia ser aplicada indiferentemente à Igreja ou a qualquer sociedade humana. Paulo dá ênfase àquilo que Deus tem feito pelo seu Espírito para tornar possível essa unidade desejada. Pelo mesmo Espírito, Deus tem dado dons variados e talentos aos membros individuais da Igreja. Conhecendo as necessidades diversas e os temperamentos de suas criaturas, Deus tem dado a cada um certas habilidades que são úteis ao bem-estar de toda a comunidade. Alguns podem curar, outros profetizar, ainda outros podem falar línguas, ensinar, ou governar (I Co 12.28). Essas diferenças de dons do Espírito não são de forma alguma desculpas para dissensão e divisões na Igreja de forma alguma; pelo contrário, Deus deseja manter os crentes juntos e em unidade, pois cada um necessita do seu irmão. Para coroar todos os dons à disposição dos crentes, há ao alcance de todos e não de uns poucos, o próprio amor de Deus que "une todas as cousas e é o vínculo da perfeição" (Cl 3.14 e I Co 13).

Todo este ensino pode parecer bastante teórico para os que têm contemplado muita dissensão e amarguras na Igreja para serem impressionados com alguns pensamentos piedosos acerca da unidade. “Era fácil para Paulo escrever tais cousas, mas ele deveria ver o povo contencioso de minha igreja!”

Se houve homem que teve motivos para desesperar-se pela falta de paz e concórdia dentro da comunidade cristã, esse homem foi Paulo. Leia tudo o que ele escreveu à jovem igreja de Corinto! Cometeram pecados terríveis: inveja, discórdias, impurezas, porfias, idolatria, prostituição, bebedices e glutonarias, cousas que Paulo cita como os pecados dos crentes da igreja de Corinto. Poderíamos perguntar se alguma congregação já tem sido acusada desse viver anticristão. E mesmo assim, a esse mesmo povo, Paulo escreve: "Ora, vós sois corpo de Cristo; e, individualmente, membros desse corpo" (I Co 12.27). Certamente Paulo não era um teórico otimista. Ele conhecia o lado triste e vergonhoso da vida da igreja, e mais: ele conhecia a realidade da graça de Deus dada em Jesus Cristo aos homens. Ele recebeu com fé a revelação da vontade de Deus em relação à unidade de seu povo.

Assim os primeiros conversos em Jerusalém e Antioquia aprenderam acerca da unidade cristã, não pela discussão teórica, mas pela vida em conjunto. Aprenderam em primeiro lugar a verdade de que Jesus Cristo pôs por terra a parede de divisão hostil. As diferenças naturais e culturais entre os cristãos não poderiam impedir a ação do poderoso impulso de Cristo de os manter juntos em comunhão. Quando séria tensão se levantou entre eles por causa do rito judaico da circuncisão — e os que pregavam tal cousa se tornaram intoleráveis aos gentios — houve perigo de que a Igreja se dividisse em partidos ou "denominações", mas Pedro, Tiago e Paulo não permitiram que isso acontecesse.

Qual a causa dessa nova e estranha solidariedade? Dependia unicamente da lealdade comum deles ao Senhor Jesus? O poder coesivo dessa fé foi na verdade forte, porém mais forte foi o poder que surgiu, não somente da vontade dos homens, mas da presença de Deus como Espírito Santo. Os membros da Igreja primitiva "perseveravam... na comunhão" (Atos 2.42). A palavra aqui usada em o Novo Testamento é koinonia que é no grego é uma palavra rica de sentido e vigorosa. Do ensino geral do Novo Testamento, aprendemos que esta palavra, que tão bem descreve aquela qualidade de vida da Igreja, tem muitos significados. Refere-se ao direito comum de propriedade, bem como a co-participação de bens, como foi o caso da coleta para os cristãos pobres de Jerusalém. Significa também o benefício comum do Espírito Santo e participação dos seus dons. Ou descreve a participação dos crentes em Cristo na vida divina do Espírito Santo. Finalmente significa a participação pessoal comum no corpo e no sangue de Jesus Cristo no sacramento da Santa Comunhão, onde pão e vinho se tornam meios de graça divina.
Naqueles primeiros anos da Igreja, a comunhão dos cristãos foi ameaçada pelas tensões internas, e pela tentação de aderir a métodos e maneiras não-cristãos. Mesmo assim esses membros da Igreja neotestamentária deram testemunho da realidade experimentada da magnífica "vida-de-koinonia" em presença do poder do Espírito Santo. Quando as dissensões entre os irmãos pareciam ameaçar essa vida coletiva, o apóstolo Paulo podia confiantemente implorar que "preservassem a unidade do Espírito no vínculo da paz" (E£ 4.3).

Além disso, ele podia assegurar-lhes que o Corpo de Cristo, no qual eles compartilhavam sua vida comum, foi dádiva de união assegurada por propósito especial da parte de Deus. Assim como Cristo veio a este mundo e se identificou com os seres humanos para os reconciliar com Deus, também veio para "unir todas as cousas, tanto as do céu como as da terra" (Ef 1.10). Esta era a sua maneira concisa de escrever acerca do último propósito de Deus — "o mistério da sua vontade". Contra toda a força má do mundo que causa rebelião contra Deus e lutas viciosas entre os homens, o Criador do mundo luta. O ataque grave e decisivo de Deus contra os poderes do mal foi a vinda de Jesus Cristo ao mundo. A unidade da Igreja é um dos primeiros frutos da vitória de Cristo. Essa unidade é parte primária do plano de Deus. É marca necessária da Igreja que Deus introduziu no mundo para proclamar, e estender a obra reconciliadora de Cristo. A unidade da Igreja, pois, é tanto um sinal de unidade perfeita que está para vir no Reino de Deus, como meio pelo qual Deus o trará à consumação. A Igreja deve ser uma, se é que vai ser usada por Deus para unificar todo o mundo em Cristo.


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(*) Esse texto é parte do primeiro capítulo do livro "UM SÓ SENHOR, UMA SÓ IGREJA", escrito por John Robert Nelson (um cristão metodista dedicado ao Ecumenismo, aos Direitos Civis, ao Ensino e à Bioética) e publicado em português no ano de 1964 pelo Centro Cristão de Literatura da Confederação Evangélica do Brasil e publicado em dezembro de 2007 no site da Igreja Metodista de Vila Isabel, Rio, Brasil.

Veja o texto completo no Site da Igreja Metodista de Vila Isabel

Leia o livro inteiro (arquivo em pdf)

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