02 janeiro, 2008

O Evangelho da verdadeira paz

“Bem-aventurados os que promovem a paz,
porque serão chamados filhos de Deus”
(Mt 5:9)

Esta bem-aventurança não se refere somente aos “pacíficos” (aqueles que fazem tudo o que está ao seu alcance para viver em paz com os outros), mas também aos que trabalham e se comprometem positivamente em favor da paz, àqueles que, em seu ambiente de vida, trabalho e influência, contribuem para construir a paz.

“Promover a Paz” é favorecer a aproximação, a reconciliação e, portanto, a fraternidade e a comunhão de pessoas, famílias, grupos sociais divididos ou em conflito. Essa atitude é uma bem-aventurança porque com ela participamos da atitude de Cristo bem-aventurado e evangelizador, cuja missão é justamente descrita na Bíblia como restauração da conciliação e da paz definitivas dos homens com Deus e dos homens entre si, através da dispersão e ruptura do pecado, do ódio e da injustiça.

Isaías refere-se ao Cristo que viria como o “Príncipe da Paz” (Isaías 9:5) e à obra de seu Reino como a realização da verdadeira paz entre os homens: “Um grande principado com uma paz sem fim” (Is 9:6). “Converterão suas espadas em enxadas e suas lanças em foices; já não levantará espada povo contra povo, nem se adestrarão mais para a guerra” (Is 2:4); “Habitarão juntos o lobo e o cordeiro, e o leopardo deitar-se-á ao lado do cabrito” (Is 11:6).

Na perspectiva bíblica, o advento da paz entre os homens torna-se possível na medida em que eles se reconciliam com Deus e retornam à comunhão com Ele: estar em paz com Deus é a condição evangélica para promover a paz entre os homens. A evangelização é “proclamar um ano de graça (reconciliação) do Senhor” (Lc 4:9) e o evangelizador é o “mensageiro que anuncia a paz (cf. Rm 10:15). A paz é o fruto da redenção de Cristo, feito vítima pela reconciliação: “Deixo-vos a paz, a minha paz vos dou; não vo-la dou como o mundo dá” (Jo 14:27); “Paz a vós!” (Jo 20:19); “Ele é a nossa paz: de ambos os povos fez um só, tendo derrubado o muro de separação e suprimido em sua carne a inimizade (...), estabelecendo a paz e reconciliando a ambos com Deus” (Ef 2:14-16).

Em suma, promover a paz é evangelizar, é consolidar a comunhão dos homens com Deus Pai e entre si.

Mas como trabalhar pela verdadeira paz, a que provém do Evangelho de Deus? Como evitar a paz enganosa, baseada no temor, na força ou na institucionalização da divisão e da injustiça? O núcleo da resposta já nos foi dado na bem-aventurança anterior, que prepara a compreensão cristã da paz: a paz se constrói mediante a prática da misericórdia.

A paz leva à solidariedade com o irmão necessitado, à sua libertação das misérias e, por conseguinte, à restauração da justiça. A misericórdia leva ao perdão das ofensas e à reconciliação. Na perspectiva da evangelização segundo as bem-aventuranças, a paz é obra da justiça e do perdão, indissociáveis no mandamento da misericórdia.

No capítulo anterior refletimos sobre a misericórdia como compromisso eficaz com o irmão, como criadora de fraternidade e comunhão. Agora, reflitamos sobre o perdão e a reconciliação como o outro caminho necessário para assegurar a comunhão e a paz.

O SERVIÇO DA RECONCILIAÇÃO

A evangelização pode ser identificada tanto em termos de libertação para a fraternidade como em termos de reconciliação. Libertação e reconciliação são elementos complementares na perspectiva da missão e de sua espiritualidade: ambas são elementos históricos constitutivos da fraternidade cristã. A evangelização segundo as bem-aventuranças é um ministério de reconciliação para a fraternidade e a paz.

O que é propriamente a reconciliação?
A reconciliação é o retorno à amizade ou à irmandade em pessoas, famílias, grupos sociais ou nações que, apesar de chamados a ser irmãos, romperam em sua irmandade ou amizade. Assim a reconciliação é mais que simples conciliação (que é um acordo mais ou menos provisório entre as partes): é a restauração da irmandade destruída. Daí o fato de que a reconciliação tenha sempre a forma de um “retorno”, de uma reconstrução, de um reencontro.

Evidentemente, a idéia da reconciliação não é privativa do cristianismo, ainda que tenha servido adequadamente para formular o sentido da obra de Cristo: reconciliar os homens com Deus e entre si. A idéia da reconciliação também vigora nas relações humanas, sociais e políticas. Os políticos falam de “reconciliação nacional”, de reconciliação nos conflitos ou nos confrontos entre países. Isso porque a idéia de reconciliação corresponde a um ideal humano e a uma lei da sociedade. A história das sociedades e dos povos não está impregnada somente pela dialética dos conflitos e injustiças de uns contra os outros, mas também pelos esforços em prol do restabelecimento da paz, do entendimento e da reconciliação.

Mas o discurso da reconciliação é freqüentemente insuficiente e interessado (ideologizado) no mundo político, sendo muitas vezes levantado como um ideal para encobrir injustiças e conflitos legítimos são resolvidos. A reconciliação, portanto, não pode ser um manto para ocultar os abusos e pecados sociais.

É necessário então colocar a reconciliação em sua perspectiva evangélica e anunciá-la com todas as suas exigências na missão. As exigências da reconciliação cristã são as exigências da paz, que é a reconciliação consolidada: a justiça e o perdão.

1. Restabelecer a justiça é uma condição para a reconciliação cristã. De imediato, uma das causas habituais da divisão e da deterioração das relações dos grupos ou povos que por vocação (história, proximidade, laços humanos) estão chamados a viver como irmãos é constituída pelas injustiças – as diversas formas de abuso e exploração do homem pelo homem. Em condições de persistência da injustiça, propor simplesmente a reconciliação não é realista e, salvo casos de muita maturidade evangélica, supera as dondições da psicologia humana. Por isso, em continuidade com a tradição bíblica (desde o profeta Isaías), a Igreja ensina que a reconciliação que leva à verdadeira paz é obra da justiça (cf. Concílio Vaticano II, Gaudium et Spes 78; Pacem in Terris 167; Popolorum Progressio 76; Medellín, Paz 14).

O avanço da justiça desobstrui o caminho dos obstáculos, conflitos e rancores provocados pelas injustiças e abusos, preparando assim a reconciliação. Mas isso não é suficiente: um acordo justo, a superação das injustiças e a satisfação das partes não bastam para recriar a irmandade. A irmandade é algo que vai além da simples justiça: ela pressupõe o restabelecimento do encontro e das formas de comunhão. Pode-se viver numa situação de justiça, mas distantes e receosos. Uma comunidade pode realizar a justiça –ninguém tem reclamações a fazer de ninguém- e não praticar o amor e a misericórdia. Há justiças muito frias.

O que acontece é que a simples realização da justiça depois dos conflitos não basta para apagar as feridas e ofensas deixadas por esses conflitos. Uma característica dos confrontos humanos é que, em seu desenrolar, as partes se ofendem e ferem mutuamente. Essas ofensas são algo objetivo, cuja lembrança e cujas conseqüências persistem para além da justiça posteriormente alcançada. Depois dos conflitos, as pessoas afetadas guardam queixas uns dos outros. Isso impede a culminação do processo de reconciliação e o restabelecimento da amizade ou irmandade perdida.


2. Sendo assim, o perdão mútuo das ofensas é igualmente necessário para a reconciliação e a consolidação da paz, em pessoas, famílias, grupos sociais, nações. Só o perdão pode fazer superar os vestígios do conflito, deixando realmente livre o caminho da reconciliação. Perdoar é usar de misericórdia – e a misericórdia vai além da justiça e das libertações humanas.

Na perspectiva do Novo Testamento, a reconciliação e a paz também são obras do perdão, o que foi sintetizado nas bem-aventuranças da misericórdia e dos que promovem a paz. Essa exigência, com a qual Jesus completou a antiga Lei, desde então faz parte da mensagem cristã: “Ouviste o que foi dito: ‘Amarás o teu próximo e odiarás o teu inimigo’. Eu porém vos digo: amai os vossos inimigos e orai pelos que vos perseguem; deste modo vos tornareis filhos do vosso Pai que está nos céus, porque ele faz nascer o seu sol igualmente sobre justos e injustos. Com efeito, se amais aos que vos amam, que recompensa tendes?” (Mt 5:43-46). A forma prática de amar o inimigo é perdoá-lo e estar disposto a reconciliar-se com ele quando se dêem as condições para tanto.

A necessidade do perdão para recriar toda uma convivência humana não é só uma exigência do cristianismo e de sua espiritualidade. Também na vida política os homens estão conscientes dessa necessidade: eles sabem que, sem um esforço para esquecer ofensas do passado e curar as feridas, torna-se muito difícil a “reconciliação nacional” depois dos conflitos. É a esse objetivo que correspondem as anistias, que constituem a versão profana, política, do perdão. A anistia que se concede depois dos conflitos não é, por si só, a reconciliação, mas cria as condições políticas para facilitar um “novo começo” e criar um ambiente de reconciliação e possibilidade de perdão. Quando promovida com base na justiça, a anistia (de todas as partes afetadas) é um meio eficaz para a reconciliação nos grupos humanos.

Contudo, deve-se recordar que a reconciliação é uma exigência que deve acompanhar os processos de conflito desde o começo e não aparecer somente no fim, depois de superados os confrontos e alcançado um acordo. Não se pode esquecer que a meta da convivência e das relações sociais em todos os seus níveis –também nos processos de luta e conflito- é a reconciliação dos homens e dos grupos sociais. Se essa meta não estiver presente desde o começo, então o perdão e a reconciliação podem se tornar extremamente difíceis no final. Mesmo durante os conflitos a idéia da vocação para a reconciliação deve se achar presente, para que não se frustre ao chegar ao seu momento. Assim, desde o início, a exigência de reconciliação contribui para humanizar os conflitos.

Os conflitos entre várias partes e a luta social (inclusive guerras) podem seguir um processo humanizado ou desumanizado. Os confrontos também devem se reger pela ética. Em boa parte, essa ética consiste no respeito aos direitos humanos, inclusive para os protagonistas da luta. O respeito aos direitos humanos por todas as partes em litígio é o que humaniza os conflitos. A violação dos direitos humanos desumaniza o conflito, abrindo feridas e criando ofensas desnecessárias, que a longo prazo constituem um grave obstáculo no momento da reconciliação.

Ao dizer que a mística da reconciliação deve acompanhar desde o início os conflitos humanos, queremos dizer que ela não deve ser apenas uma aspiração a ser promovida uma vez terminados os confrontos, mas sim um fator operante durante todo o processo do conflito, criando uma atitude humanizante nesse processo. A vivência da mística da reconciliação se expressa primordialmente no respeito à ética e aos direitos humanos durante os confrontos. Isso facilita grandemente a disposição de anistia, perdão e reconciliação. Os abusos, as crueldades, as vinganças e toda a força de violação da dignidade humana durante os conflitos dividem e destroem de tal forma a irmandade que, na hora de colocar a exigência de reconstruí-la, é preciso uma atitude espiritual que, de fato, não se pode pedir a todos. Nesse caso, tem-se que esperar uma ou duas gerações para restabelecer as condições de serenidade que tornem possível a reconciliação.

Evangelizar é anunciar ao mesmo tempo a justiça libertadora e a reconciliação, é ensinar as pessoas a se identificarem com os pobres e oprimidos e, ao mesmo tempo, a perdoarem. Não se pode criar a comunhão humana sem essas duas dimensões. Evangelizar no espírito das bem-aventuranças significa seguir Cristo libertador e misericordioso, transmitir a seus discípulos ambas as atitudes, construir a fraternidade cristã com base na justiça e na reconciliação.

Naturalmente, sintetizar essas exigências no calor da realidade não é fácil. Isso requer dos evangelizadores uma espiritualidade madura e, na prática da evangelização, requer sabedoria e pedagogia. Nesse terreno, caminha-se sempre entre os abismos do fomento aos rancores que dividem e da falsa unidade da resignação conformista. A verdade é que a reconciliação é necessária não como um luxo, mas sim para que a justiça seja consistente e parta que a libertação seja humanizante – portanto, para que não se criem novas opressões e injustiças. E a justiça é necessária para que a reconciliação seja viável e permanente.

Na prática da evangelização, torna-se necessário de fato um discernimento da oportunidade pedagógica. Quando acentuar o tema da luta pela justiça e quando acentuar o tema do perdão e da reconciliação? O discernimento não se apresenta em termos de exclusão de um ou outro, mas em termos de oportunidade e ênfase. Em certas situações, o chamado à reconciliação pode ser tão profético como a denúncia das opressões e em outras situações pode ser interpretado como legitimação das injustiças. O que o Evangelho nos pede é manter a síntese das bem-aventuranças, evitando a tentação da uniteralidade sistemática.

Em última análise, trata-se de reconstruir a fraternidade cristã. Ela é o único sinal da verdadeira paz –evangelizar é promover a paz.

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Texto de Segundo Galilea, extraído das págs. 91 a 100 do livro Espiritualidade da Evangelização segundo as bem-aventuranças”, publicado em 1980 pela Edições Paulinas.

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