01 janeiro, 2008

Para que igrejas avivadas em um mundo morto?

André Botelho (*)

O reverso do delírio paranóico do deus onipotente e da Igreja Ultra-Potente é o Deus que se revelou como fraqueza e confiou à Igreja seu carisma para salvar o mundo.

Uma espécie de consciência febricitante domina a Igreja em nossos dias fazendo-a pensar que não avança missionariamente porque lhe falta poder. Ora, poder significa dispor de força e autoridade ou ainda ter grande influência ou domínio sobre outrem. É neste sentido que, não muito longe, já vimos a sede de poder transformar a Missão da Igreja num exercício de força e intolerância. Percebemos que a obsessão pelo poder pode gerar o desprezo do carisma, levando a Igreja a caminhos nada cristãos. Pode tornar suas orações, celebrações, e, acredite, até a sua piedade em meros atos pagãos. O poder temporal em si não é um mal, contudo, se instrumentalizado em benefício próprio, torna-se meio de exclusão e opressão. Quem já leu um pouquinho acerca da longa História da Igreja ? e sua relação com o poder dos príncipes ? não custou a perceber que a sedução do poder tornou o “Céu” o perpétuo lugar de Deus e a Terra a eterna realeza da toda-poderosa Igreja.

Hoje, aqui, muitas vezes distraídos, enquanto sonhamos com poder e em como tornar a Igreja mais poderosa, o mundo anseia por uma Congregação Cristã de humildade e fraternidade. Os desafios do tempo presente que interpelam a comunidade da fé são os clamores por uma instituição com carisma e não com poder ? no sentido de potestas.

Muitas instituições poderosas existem no mundo, mas os seus poderes não têm funcionado para resolver seus próprios defeitos morais, suas mazelas e suas injustiças. Carisma é a graça divina estampada no rosto de uma Igreja que não se fechou diante do desafio da evangelização e da humanização do mundo. Uma Igreja com poder fala e impõe, uma Igreja com carisma ouve e serve. O mundo resiste ao poder, mas acolhe o carisma. O poder cansa, o carisma renova.
Já não é a Igreja de Jesus Cristo cheia da Graça de Deus? Precisaria ela de mais poder? Não seria porventura o mundo quem, de fato, precisa de um avivamento urgente? Sobre isso penso ser inadiável um diálogo aberto.

Muitas vezes a Igreja pode estar lutando por conservar estruturas internas de poder, ao invés de manifestar abertamente a graça de Deus aos homens. Tomemos como exemplo a Igreja do Novo Testamento: apesar de suas muitas deficiências, mantinha-se como comunidade de grande vitalidade missionária. Era carismática no serviço! Se hoje somos “carismáticos” no poder, é porque nos falta poder de Deus para sermos carismáticos. Somos “avivados” na celebração e ultra-tradicionalistas na Missão! A Igreja pode ter recursos, conexões, instituições, mas ainda assim não ter influência alguma sobre a realidade e a sociedade. Apesar de sucessivos “avivamentos”, a Igreja permanece conservadora, na contramão da História e em extrema fragilidade moral e institucional, pois luz não se ouve ? luz se vê!

É desesperador notar como “carismáticos” de carteirinha não conseguem dialogar um minuto sequer sobre Missão de verdade. É neste sentido e por isto que devemos defender um diálogo franco e urgente em torno do verdadeiro significado da renovação espiritual para os dias de hoje. A Igreja deve mudar o foco do avivamento! Deve buscar uma renovação de sua consciência, precedida de uma conversão radical do seu coração. Precisa viver uma kénosis (esvaziamento total) de qualquer tipo de poder cultivado em seu interior incompatível com a sua verdadeira vocação cristã. Assim, ela deve perseverar na Fé e manter-se pura diante da tentação de prostituir-se com poderes partidários egoístas e mesquinhos, perdendo a única autoridade conferida por Deus a si: que é a de ouvir, servir, denunciar-profetizar e, se preciso for, colocar-se no lugar de quem sofre e morrer com os que morrem.

Se muitos falam de unção como poder, poucos falam de poder como unção para servir. Linhas “carismáticas” extremadas são dadas como o modelo ideal de povo de Deus em quase todas as igrejas do nosso país, mas nem sempre as atitudes revelam a misericórdia e o amor revelados em Jesus de Nazaré. Diante do testemunho do Senhor não resistem argumentos: importa amar ou amar! Quem vive buscando mais poder para a Igreja nega a Graça de Deus que nela está. Quem vive esperando mais poder acaba tornando-se fraco e omisso diante do desafio que diante de si está por fazer. Para que servem igrejas avivadas em um mundo morto?

Acredito que a expectativa do mundo seja por uma Igreja muito mais humana e amorosa do que “avivada” e “poderosa”. Acredito que o mundo deseje ardentemente aquilo que a Igreja tem recebido e que deve compartilhar consigo: a Graça de Deus transformada em Carisma Eclesial. Somos Igreja não porque merecemos ou decidimos, mas porque o amor de Deus está entre nós; é unicamente neste sentido que podemos pregar a “conversão de todos os povos” e imaginar uma Igreja: uma comunidade de irmãos dinamizada pelo amor gratuito de Deus e que se organiza conscientemente como fraternidade radical.

Poder não gostamos de repartir. Poder gera divisão entre nós: normalmente afasta, exclui e “cria” ungidos. Carisma aproxima e realiza!

Precisamos, por isso, de um novo avivamento que nos ensine a compartilhar a Graça de Deus em nós com o mundo. Precisamos de uma renovação espiritual constante que nos mantenha sempre abertos para o amor e para o serviço. Que nos ensine que o Poder de Deus não é outro que não o poder de amar e servir, isto é, o inverso do delírio paranóico de uma Grande Igreja Ultra-Poderosa. Nossa inspiração não pode ser fabulosa, sustentada na imagem de um deus onipotente. Nossa inspiração é concreta, revelada no testemunho do Deus poderoso no amor, que se fez fraqueza e sacrifício vivo em Jesus Cristo e que confiou na fraqueza dos homens tornada Igreja a sua Graça para salvar o mundo re-criando a Criação.

E é exatamente por isto que Deus não pode usar o poder da Igreja para salvar o mundo, mas apenas a sua fraqueza confessada.

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(*) Rev. André Botelho, pastor da Igreja Metodista em Jardim Oceânico, RJ.

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