24 dezembro, 2007

O Ministério Leigo

Texto de Stanley Jones.

Creio que o próximo reavivamento virá por in­termédio dos leigos. Não creio que pastores, missionários e evange­listas possam salvar o mundo. Em primeiro lugar, somos muito poucos, e se pudéssemos salvar o mundo, creio que não seria bom, porque tiraríamos dos leigos o privilégio de serem parte do desenvolvimento resultante da participação conjunta da mesma fé.

A vida cristã não pode ser desenvolvida sem a participação conjunta e estamos descobrindo agora que ela é um movimento leigo. Em primeiro lugar, Jesus era leigo. Quando lhe pediram credenciais, Ele não as tinha, a não ser as pessoas que transformara.

Os dozes apóstolos também eram leigos. Não há nenhum fato histórico provando que foram impostas mãos sobre suas cabeças para que saíssem a pregar. "Vós não me escolhestes a mim, Eu vos escolhi e vos ordenei..." Eles foram ordenados pela escolha divina que os separou para esse serviço. Se houve sucessão apostólica, nela não encontramos os apóstolos.

Mas os Apóstolos foram os que começaram a agir como se o movimento fosse deles. Começaram a discutir sobre quem seria o primeiro. Proibiram a uma pessoa de expulsar demônios porque esta não queria segui-los; e, até mesmo, queriam pedir fogo celestial sobre uma aldeia que não os quis receber. Foi depois desta experiência que Jesus chamou mais 70 e os enviou. Ele tinha que repousar o caráter leigo do seu movimento sobre os setenta. Então os mandou, dois a dois, dando-lhes a mesma missão que havia dado aos Apóstolos: "Aquele que vos receber, a mim me recebe". E quando estes setenta regressaram, Jesus se regozijou em Espírito: "Pai, graças te dou porque escondestes estas coisas aos sábios e entendidos e as revelastes aos simples." E quem eram estes simples? Eram os setenta que haviam regressado e haviam expulsado demônios.

Devemos lembrar que o Espírito Santo não desceu somente sobre os doze, mas sobre cento e vinte pessoas. O maior dom divino não estava aberto somente para uns poucos. Ao pé da cruz, o solo estava aplainado e todas as pessoas eram iguais perante Deus.

No tempo da Igreja primitiva surgiu um caso sobre a distribuição do pão, e os doze chamaram o principal grupo de crentes e disseram: "Não convém que deixemos os trabalhos da pregação da pregação da Palavra para servir as mesas. Escolhamos sete homens dedicados para este serviço". E escolheram os sete.

Os apóstolos se dedicaram ao ministério da oração e da pregação. Por muito tempo pensei que essa foi uma sábia medida, mas hoje creio que foi um erro. Eles puseram uma cunha entre o material e o espiritual e dividiram o que Deus na encarnação havia juntado.

Na encarnação, a palavra se tornou carne. Espiritual e material se tornaram um só, mas os discípulos fizeram a separação, que existe até hoje.

A fé cristã acredita no material e é a única que toma o material seriamente. Deus criou todas as coisas e achou que eram boas. Portanto, o material é aprovado e criado por Deus, e o centro da fé cristã é "E o verbo se fez carne". Espiritual e material eram duas partes de uma só realidade. A espiritualidade deve funcionar em relações materiais. Não há outra maneira de funcionar. Tem de ser: verbo que se torna carne, ou não será verbo.

O que aconteceu à Igreja primitiva com essa divisão? Os sete, que foram escolhidos para cuidar do material, tornaram-se centro espiritual do movimento.

Foi Estevão, um dos sete, que provocou o reavivamento em Jerusalém, do qual resultou seu martírio. Filipe, outro dos sete, foi quem pregou o evangelho além de Jerusalém, e toda a Samaria aceitou a Palavra de Deus. Então os apóstolos enviaram Pedro e João para regularizarem aquilo que eles não puderam produzir.

Filipe foi quem primeiro pregou o Evangelho a um etíope, e a Igreja da Etiópia existe até os nossos dias. Ele teve também quatro filhas que pregavam o Evangelho. Foi Filipe quem começou um trabalho entre mulheres solteironas, as quais deram boa contribuição à Igreja primitiva.

Filipe é o primeiro homem chamado "evangelista" nas Escrituras, o que é interessante, porque ele deveria apenas servir as mesas.

Lembremos que o grupo perseguido no tempo de Estevão foi para a Antioquia, e lá pregou o Evangelho a judeus e gregos, e a mão do Senhor estava sobre eles. Assim, a Igreja de Antioquia foi fundada por leigos dispersos pela perseguição. Quando Barnabé chegou e conheceu aquele grupo de Antio­quia, disse: "Este é o tipo de cristianismo que eu gostaria de expor à alma de um jovem que conheço". Então foi à cidade de Tarso, procurou Paulo, e o levou para lá. Foi de Antioquia que Paulo e Barnabé saíram para a primeira viagem missionária. Antio­quia tornou-se o centro de contágio para o evangelismo e as missões.

Lembremos de Lídia, a vendedora de púrpura, primeira convertida na Europa. A Escritura diz que o seu coração foi aberto pelo Senhor. Não podemos relatar o que acontece quando Deus abre o coração de uma mulher. Mas abrir o coração de Lídia significou um continente inteiro para o evangelho. Agora Paulo lidera um movimento cristão em grande escala, e ele é leigo, não houve imposição de mãos sobre sua cabeça.

Todos os movimentos cristãos primitivos foram iniciados informalmente. E assim foi até o Concílio de Nicéia, quando o clero penetrou no centro da Igreja. Muito especialmente os Bispos e os leigos foram empurrados para as margens. Isto tem continuado até hoje. Agora estamos descobrindo o caráter leigo da fé cristã. A palavra de onde procede o termo "leigo" significa: o povo escolhido por Deus. No princípio as palavras "laós" e "cleros" eram usadas no mesmo sentido. Assim os leigos são tão escolhidos por Deus como os clérigos.

(...) Qual é a parte do pastor? É a de ser o treinador do “time”. É melhor fazer dez homens trabalharem do que fazer o trabalho de dez homens. A maior e melhor hora do evangelismo ainda está à nossa frente. Eu creio que o Brasil é um dos campos mais amadurecidos para o evangelismo.

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Texto extraído do 6º capítulo do livro "Jesus é Senhor", escrito por Stanley Jones e publicado em 1969 (2ª edição) pela Imprensa Metodista.

O livro pode ser lido integralmente no site da Igreja Metodista de Vila Isabel.

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