22 dezembro, 2007

Mateus Ricci e João Adão Schall von Bell - jesuitas que por volta de 1583 promoveram a inculturação da fé cristã na China e sofreram com o dogmatismo

(texto extraído do capítulo 6 do livro "Começando de Jerusalém", escrito por John Foster e publicado em português em 1961 pela Imprensa Metodista que narra de forma suscinta e intrigante o avanço missionário e a expansão cristã através de dezessete séculos, começando justamente de Jerusalém).

Em 1583, Mateus Ricci, jesuíta italiano, não apenas penetrou no sul da China, mas dentro de vinte anos esta­va residindo em Pequim, a capital, e estava começando a influenciar os círculos da corte.

Havia se tornado chinês no vestuário, maneiras e falar, e havia conquistado amigos entre os oficiais por sua vasta cultura, tão diferente de toda a educação literária deles. À sua casa podiam ir para examinar e discutir seus relógios e lentes; instrumentos e livros matemáticos, astronômicos e geográficos; música quadros e pinturas; livros e Bíblias em encadernações mag­níficas.

Ricci era bastante erudito em literatura chinesa, respeitava bastante os costumes chineses, e muitas vezes usava termos dos clássicos chineses (Shang-ti, Ser Supremo e T'ien, Céus), quando falava de Deus. Dizia que as ceri­mônias que demonstravam reverência para com Confúcio, e para com os antepassados de uma pessoa, não precisavam ser consideradas como culto, e desse modo não colidiria inevitavelmente com a Fé crista. Conta-se que ao morrer, em 1610, havia 2.500 cristãos. Entre estes se incluía um dos mais altos oficiais, sete membros de uma família inti­mamente relacionada com o imperador, e seis senhoras da corte. Conversões como essas aumentaram. Em 1648, quando os manchus estavam invadindo a China pelo norte, o herdeiro do trono, a imperatriz e duas imperatrizes dowagers foram batizados, recebendo o Príncipe o nome de ba­tismo de Constantino. Realmente iria repetir-se aqui a his­tória do império romano?

Os manchus triunfaram, mas as esperanças dos jesuítas ainda eram muito grandes. Pois o Padre João Adão Schall von Bell (1591-1666), alemão, foi nomeado oficial astrôno­mo, e exercia grande influência junto do novo imperador manchu.

Schall escrevia:
“Como antigamente uma estrela trouxe os Magos à adoração do verdadeiro Deus, assim o Príncipe do Extremo Oriente, pelo conhecimento das estrelas, pode ser levado a reconhecer e a adorar o Senhor.”

Aqui estava ainda uma outra esperança não realizada. O novo imperador foi o maior de todos os manchus, K'ang-hsi. Foi um estudante sério das ciências européias, e durante cinco meses estudou diariamente com o Padre Verbiest. Embora nunca persuadido a tornar-se cristão, foi ele que le­vou a missão a conseguir o seu maior sucesso, publicando um decreto em 1692, garantindo liberdade do culto cris­tão por todo o império. O conhecimento de que os jesuítas gozavam de prestígio na corte impediu por muito tempo que os oficiais locais interferissem, e por esse tempo afir­mava-se haver 300.000 cristãos que se encontravam em to­das as províncias menos no extremo ocidente. Além dos jesuítas, dominicanos e franciscanos e alguns outros ti­nham vindo para valer-se da oportunidade.

Houve, porém, uma séria divisão entre os missioná­rios, especialmente dos dominicanos contra os jesuítas, quanto ao problema de até onde o cristianismo podia aco­modar-se ao costume chinês.

A famosa controvérsia dos Ritos (inevitável a comparação com o que aconteceu em Madura, na índia) foi encaminhada para Roma, discutida entre os eruditos da Europa, e não termi­nou durante um século (1634-1742). Em seu âmago havia estes dois problemas:
1) Poderiam os cristãos usar para "Deus" Shang-ti e T'ien dos clássicos confucianos, ou devem ser limitados a um único termo T'ien cha (Senhor dos Céus)?
2) Poderiam os cristãos ligar-se a outros oficiais em cerimônias, honrando Confúcio como um legislador, sem adorá-lo; e, semelhantemente, poderia um cristão unir-se a outros membros de sua família em reverência aos seus an­tepassados, sem adorá-los?

O imperador K'ang-hsi estava bastante interessado em dar a sua opinião — em apoio da permissão de Ricci de há muito estabelecida em ambos respeitos. Quando foi anunciada a decisão do papa em 1704, verificou-se que era proibição.

Uma cópia chinesa da de­cisão do papa ainda subsiste, apresentando notas furiosas a tinta vermelha, pela mão do imperador:
“Isto demonstra como os ocidentais de mentalidade estreita falam a respeito da alta doutrina da China — entretanto nenhum deles tem educação chinesa!... O autor disto é como qualquer outro sacerdote budista ou taoísta, mas nenhum jamais foi tão longe quanto ele. Doravante não se permitirá a nenhum ocidental propagar a sua religião na China. Assim evitaremos muitos aborrecimentos.”

A ameaça de K'ang-hsi não foi cumprida literalmente. A Missão de Pequim, ligada à corte por serviços astronômi­cos e outros, permaneceu sem ser molestada até 1805, mas em outras partes, desde 1707 por mais de um século e um quarto (125 anos) houve surtos de perseguição, com prisões, exílios e execuções.

Todavia, nunca faltaram recrutas missionários, embora chegassem em números menores, algumas vezes através de rotas indiretas, e muitas vezes com risco de suas vidas.

Em 1810 informou-se que trinta e um sacerdotes europeus e oitenta chineses estavam trabalhando no impé­rio. Embora uma parte de sua obra tivesse sido destruída, a religião cristã não devia desaparecer nessa ocasião.

Quando, em meados do século 19, começou a raiar novamente a alvorada da oportunidade, haveria uma Igreja de cerca de um quarto de um milhão (250.000) para saudar o novo dia.


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Este livro pode ser lido integralmente no site da Igreja Metodista de Vila Isabel.

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