07 janeiro, 2008

América Latina vive democracias com resultados desiguais: continente rumou na direção de sociedades abertas e economia global.

Juan Bautista Alberdi, constitucionalista e liberal argentino, observou em 1837 que as "Nações, como os homens, não têm asas: percorrem o caminho a pé, passo a passo". A América Latina, há muito suscetível a vislumbres utópicos de revolucionários e caudilhos, e que até hoje não está imune a essas figuras, lutou para incorporar essa verdade. Contudo, como Michael Reid observa em seu novo livro "Forgotten Continent" (continente esquecido), surgiram democracias de massa duradouras em toda a região.


Nos últimos anos, essas democracias lançaram os dados com uma variedade extraordinária de líderes, incluindo Michelle Bachelet no Chile, Luiz Inácio Lula da Silva, o metalúrgico que alcançou a presidência do Brasil, e o militar venezuelano Hugo Chavez.


Os resultados são desiguais. Chavez testou a paciência de todos com sua bazófia de revolução socialista nutrida pelo petróleo. Mas com passos prosaicos, um após o outro, o continente rumou na direção de sociedades abertas e economia global.


O progresso chegou apesar das desigualdades brutais de renda, que transformaram cidades como São Paulo em labirintos de riqueza e pobreza. A improvável ascensão de Lula refletiu a esperança de que esses abismos sociais pudessem ser estreitados, assim como o sucesso inicial de Barack Obama e Mike Huckabee reflete a avidez da sociedade por mudanças e o cansaço da população dos titãs do fundo hedge se esquivando dos impostos pagos pelo cidadão comum.


Democracia e esperança
Enquanto seguem a jornada a pé, os países também sonham. As democracias são criativas e avessas à concessão. São muitas as suas imperfeições, mas também são muitos os mecanismos de auto-renovação. Esperança é imprescindível. A dinâmica, com o passar do tempo, supera o dinástico.


A jornada brasileira foi muitas vezes hesitante, dando margem à panacéia de que se tratava de um país com um grande futuro condenado à eterna contemplação. Os índices anuais de homicídios, na casa das dezenas de milhares, indicam os contínuos problemas sociais. Tom Jobim, que compôs "A Garota de Ipanema", lembrou que o Brasil não é para iniciantes.


Mesmo assim, como Lula havia previsto com seu perspicaz pragmatismo – quem mais é amigo de Chavez e do presidente Bush? – a maré está a favor deste país. O futuro do Brasil é agora e por cinco motivos: terra, matéria-prima, energia, meio-ambiente e China.


Território agrícola
Vastidão é o que define o Brasil. O uso agrícola de seu território está longe de atingir a exaustão. Tendo alcançado a posição de maior exportador de café, carne, açúcar e suco de laranja do mundo, vem aumentando rapidamente as exportações de outros produtos alimentícios, inclusive frango (equivalente a US$ 4,2 bilhões em 2007, comparados com US$ 2,9 bilhões em 2006) e soja. Mais de 90 milhões de hectares, uma área maior do que a que se encontra em cultivo no momento, seguem inexplorados fora das florestas tropicais.


Outro produto cuja exportação cresce rapidamente é o minério de ferro. A China, que está investindo pesado no Brasil, quer tudo que conseguir obter, na mesma proporção em que se interessa por alimentos (como a Índia) e energia. Esta abunda no Brasil e ainda pode se expandir muito mais.


Basta pensarmos nos vastos recursos hidrelétricos do Brasil e na sua recente descoberta de um enorme poço de petróleo de águas profundas na costa sudeste. A longo prazo, o importante será a sua liderança mundial na área de combustíveis de origem vegetal, sobretudo o etanol de cana-de-açúcar, que produz oito vezes mais energia por hectare do que o milho do qual se extrai a maior parte do etanol dos EUA.


Somando isso à quantidade quase ilimitada de terras agricultáveis, temos em foco a importante mudança do futuro para o presente no Brasil. Como escreve Reid: "Se a China se transformar na fábrica do mundo e a Índia em seu departamento administrativo, o Brasil será a sua fazenda, e possível centro de serviços ambientais." A liderança do país em combustíveis não fósseis e a incomparável biodiversidade da floresta amazônica fazem dele um líder natural na luta do século XXI contra o aquecimento global.


Transformação subestimada
Nenhum item citado anteriormente seria significativo se o Brasil fosse instável. Mas, como a maioria do continente, o país se tornou mais previsível. A China percebeu isso e está rapidamente ampliando suas relações comerciais com o Brasil e outros países da América Latina. Os Estados Unidos também tentaram obter uma série de acordos de livre comércio, com resultados variáveis.


De modo geral, porém, permeia o continente a sensação de negligência dos americanos, agravada pela promessa não cumprida de Bush feita antes do 11 de setembro de que seria dado um novo foco que refletiria a presença de mais de 40 milhões de latinos nos Estados Unidos. O próximo presidente deve priorizar a atenção ao sul, considerando o Brasil como pivô de relações mais aprofundadas.


A transformação da América Latina nas últimas décadas foi subestimada. Foi política e econômica, mas também cultural. O preconceito enraizado contra populações indígenas, mestiças e mulatas foi confrontado e, se não eliminado, pelo menos diminuído. Em termos históricos, foi um período de fortalecimento àqueles de pele escura. As Américas estão mudando e, apesar da retórica antiianque de Chavez, estão se tornando, passo a passo, mais unidas.

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Notícia:
Roger Cohen, Do New York Times, no G1.
Endereço: http://g1.globo.com/Noticias/Economia_Negocios/0,,MUL248728-9356,00-AMERICA+LATINA+VIVE+DEMOCRACIAS+COM+RESULTADOS+DESIGUAIS.html

Tradução: Cláudia Freire

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