02 fevereiro, 2010

Sobre Haiti, maldições e bobagens evangélicas! (Antônio Carlos Soares dos Santos)

Diante de mais uma tragédia de proporções gigantescas, surge outra vez mais os pseudo-profetas das explicações fáceis, esses aparecem para esclarecer o inexplicável. É relevante lembrarmo-nos nesse momento das palavras de Jesus em Lucas 13. 1-5:

“E, NAQUELE mesmo tempo, estavam presentes ali alguns que lhe falavam dos galileus, cujo sangue Pilatos misturara com os seus sacrifícios.

E, respondendo Jesus, disse-lhes: Cuidais vós que esses galileus foram mais pecadores do que todos os galileus, por terem padecido tais coisas? Não, vos digo; antes, se não vos arrependerdes, todos de igual modo perecereis.

E aqueles dezoito, sobre os quais caiu a torre de Siloé e os matou, pensam que foram mais culpados do que todos quantos homens que habitam em Jerusalém? Não! Vos digo; antes, se não vos arrependerdes, todos de igual modo perecereis”.

Não aprendemos nada mesmo... Será que ainda pensam que os haitianos são mais pecadores do que o restante da humanidade? Jesus coloca que antes de qualquer julgamento que se faça, a morte pode chegar da mesma maneira. O arrependimento sim... É algo que se faz urgente na vida de qualquer pessoa. Presenciei a conversa entre dois evangélicos que muito me entristeceu. Ambos ecoavam a infeliz declaração do cônsul do Haiti George Samuel Antoine, dizendo que uma maldição pairava sobre aquele povo. Na verdade, é o pensamento de muitos, como já demonstrou o “pastor” Pat Robertson. Uma explicação simplória e tosca como muitas coisas no atual cenário evangélico.

É mais fácil dizer que uma maldição está sobre um país do que buscar em sua própria história as razões da miséria, da fome...é mais fácil dizer que foi tomado pelo diabo do que reconhecer que, em nossa natureza, ainda emerge sentimentos como cobiça, ganância, preconceito, inveja, violência... Como a torre de Siloé desabando sobre os dezoitos pobres trabalhadores, assim um terremoto, sem aviso prévio, sem razão de acontecer, atingiu o povo do Haiti. Não nos cabe encontrar explicações, ainda mais explicações tão sinistras como esta. O que posso ver nesse incidente é a decadência da solidariedade e da lucidez teológica e bíblica do povo evangélico, que atualmente só tem algumas coisas em mente: enriquecer, fazer campanhas, enriquecer, demonizar tudo, enriquecer, construir mega-templos, enriquecer, fazer festas, e se der tempo, enriquecer mais um pouco...

Oh mundo tão desigual Tudo é tão desigual... De um lado esse carnaval De outro a fome total...

Apesar de não compartilharmos da festa de carnaval, vivemos um eterno carnaval (festa da carne), enquanto do outro lado, a fome e a miséria são a realidade. Mas e daí? É tudo culpa do diabo e seus demônios... É maldição hereditária... É qualquer coisa que não se precise pensar muito. É qualquer coisa que não se precise fazer nada além de orar, assim se tem a parva impressão de que estamos fazendo nossa parte. Como diz Brennan Manning em seu livro O “Evangelho Maltrapilho”: A tentação do momento é a aparência sem conteúdo. Estamos diante de uma situação em que nossos corações ao menos poderiam chorar com aquele povo. Chorar por brasileiros que também foram vitimas, inclusive Zilda Arns que dentro de sua realidade e capacidade, fez o que muitos de nós nos atrofiamos em fazer, chorar por crianças cortadas em sua tenra vida... Chorar por nós mesmos que estamos cada vez mais perdendo nossa humanidade e nossa essência cristã... Nas palavras de Cecília Meireles, eu lamento e espero:

É preciso não esquecer nada:
nem a torneira aberta nem o fogo aceso,
nem o sorriso para os infelizes
nem a oração de cada instante.

É preciso não esquecer de ver a nova borboleta nem o céu de sempre.

O que é preciso é esquecer o nosso rosto,
o nosso nome, o som da nossa voz, o ritmo do nosso pulso.

O que é preciso esquecer é o dia carregado de atos,
a idéia de recompensa e de glória.

O que é preciso é ser como se já não fôssemos,
vigiados pelos próprios olhos severos conosco, pois o resto não nos pertence.

3 Comments:

At abril 25, 2010, Blogger Simbolos said...

bem interessante seu post..
abs
jailson

 
At julho 17, 2010, Blogger Georges said...

Esta passagem é extrordinária, se bem que esta expressão não é boa para a bíblia, pois para isso uma quantidade significativa de passagens em relação a esta deveria ser ordinária, e não é o caso.

Entretanto, os é necessário lembrar que de fato o que aconteceu no haiti pareceu (além de uma tragédia) uma mensagem (não uma ponição aos haitianos); Mas, é como se a mensagem de Deus tivesse pego 'carona' nesta tragédia e trazido uma mensagem para todos nós. Neste ponto acho que apesar do alarmismo dos exagerados e de discurso antiquado, este a(in)cidente serve para nos lembrar do nosso fim carnal; e da nossa insignificância diante da natureza /quissá diante de Deus.

 
At julho 17, 2010, Blogger Georges said...

*Quiçá diante de Deus

 

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